Os jogos “Liga-Liga Soma” e “Ariê Bagunça” são cozy games, isso quer dizer que eles pretendem ser aconchegantes. Mas tem mais coisas neles: sem pressão de tempo nem “Parabéns” no final.
Qual será o benefício disso? Isso pode gerar falta de estímulo para quem joga?
Praticamente todos os jogos comerciais usam mecanismos de recompensa e engajamento. A gamificação, muitas vezes, virou sinônimo de tarefa seguida de recompensa. Mas nos passatempos tradicionais, como palavras-cruzadas de jornal, jogos de cartas ou dominó, muitas vezes não havia cronômetro nem festa ao terminar. Quando acabava, cada um dava um sorriso e recomeçava, ou simplesmente encerrava a brincadeira.
Tudo que fazemos parece que precisa ser útil imediatamente, gerando uma recompensa financeira ou social. Qualquer coisa, como lavar a louça, vira a tarefa mais chata do mundo. Por outro ponto de vista, é muito bom, depois da louça lavada, ver que a cozinha ficou arrumada, mesmo sem medalhas ou estrelinhas.
Não há nada de errado em comemorar uma conquista. O problema é quando a comemoração passa a ser mais importante que a própria conquista.
Pesquisas em psicologia e neurociência já observaram situações em que recompensas externas diminuíram o interesse espontâneo por uma atividade. Certas recompensas, especialmente quando esperadas ou usadas para controlar o comportamento, podem até reduzir esse interesse. Isso não significa que elogios sejam ruins. Significa que nem toda atividade precisa deles. Nessa hora entra a chamada motivação intrínseca: aquela vontade de fazer alguma coisa porque a própria atividade é interessante ou prazerosa.
Sem música de vitória. Sem três estrelas. Sem pressão para ser mais rápido.
A criança pode observar, pensar, experimentar, errar e tentar novamente. Ela não precisa provar que foi a melhor. O jogo também não precisa dizer o tempo todo que ela foi incrível.
É uma tentativa de recuperar nos jogos digitais aquela tranquilidade dos passatempos de jornal, dos quebra-cabeças e dos jogos de cartas. Usar animações, cores e interatividade para criar jogos em que a satisfação pode nascer da própria atividade, sem exigir um prêmio adicional.
Fundamentação científica
Deci, Koestner e Ryan (1999) — A Meta-Analytic Review of Experiments Examining the Effects of Extrinsic Rewards on Intrinsic Motivation. Psychological Bulletin, 125(6), 627–668.
Consultar publicação
Meta-análise de 128 estudos que examina como diferentes tipos de recompensas externas podem afetar a motivação intrínseca.
Murayama et al. (2010) — Neural basis of the undermining effect of monetary reward on intrinsic motivation.
Consultar publicação
Estudo experimental com neuroimagem que identificou alterações comportamentais e na atividade cerebral relacionadas à motivação após a retirada de recompensas financeiras.
Di Domenico e Ryan (2017) — The Emerging Neuroscience of Intrinsic Motivation: A New Frontier in Self-Determination Research.
Consultar publicação
Revisão científica sobre a motivação intrínseca e sua relação com sistemas cerebrais envolvidos na curiosidade, exploração e recompensa.
Conheça os jogos:
Liga-Liga Soma
Ariê Bagunça