Eu sou o Tavo. Escrevo histórias para videogames, mas, antes que você sinta inveja do meu emprego, espere até ver o caos que é a minha vida. É o seguinte: hoje é 1º de novembro de 2026 e faz exatamente seis anos que comecei a imitar as pessoas. Não me pergunte o porquê; a ciência não explica, e eu também não faço questão de saber. Eu simplesmente imito o jeito das pessoas, de forma totalmente involuntária, esquisita e, na maioria das vezes, na hora errada. Quer ver como funciona? Venha passar um tempo comigo e tire suas próprias conclusões.
Na sala de reuniões, Montefortes, meu chefe, já está de pé quando entro com um novato recém-contratado. Montefortes é o tipo de homem que claramente toma café demais.
— Aí estão vocês! — ele disse, abrindo os braços de forma dramática. — Entrem, entrem. Sentem um pouco... não, esqueçam, melhor não sentar. Sentar dá uma sensação de que a reunião começou, e eu não gosto de reunião com cara de reunião.
Olhei de relance para o novato, me perguntando se ele também achava que o nosso chefe precisava de um calmante. Montefortes pegou uma pasta.
— Café? Água? Não! Vamos direto ao ponto. Temos um novo projeto de jogo chamado “Reino de Flora”, e vocês dois vão trabalhar sozinhos em uma sala fechada. Já conheceu a empresa? — ele apontou para o lado de fora, encarando o novato.
— Sim, sim, já vi o pessoal do desenho. A Alice é a chefe do setor, certo? — o cara novo disparou, transbordando uma energia que me deu cansaço só de olhar. — Também falei com os programadores e com o time de vendas. E a copa, nem se fala: podia até morar ali!
É aqui que preciso interromper a cena para explicar como a minha mente funciona, porque a minha situação tem regras bem rígidas. A primeira delas é a Regra do Ouvir Falar: eu copio o jeito de a pessoa falar no exato momento em que a escuto abrir a boca.
Esse cara novo, o Gus, era falante e animado — com um tom de voz que me pareceu estranhamente familiar. No meu diagnóstico rápido, ele era a pessoa perfeita para eu imitar se quisesse fazer o trabalho render e agradar o chefe. Resolvi entrar na conversa e testar se o tom de voz dele já tinha colado em mim.
— Chefe, pegando carona no seu direto ao ponto, já sei que esse é um projeto de meses com prazo para ontem! — disparei, sentindo as palavras saírem exatamente com o entusiasmo do novato. — A sala fechada é perfeita e já estou sentindo que o Gus é uma escolha certeira.
Perfeito. Não reclamei do prazo absurdo, mantive o tom ágil e pareci o funcionário do mês. O novato estava aprovado como meu modelo de voz.
— Me sigam — ordenou o chefe, marchando no corredor enquanto o Gus e eu íamos atrás. — Temos apenas duas semanas para entregar o roteiro e o funcionamento do jogo.
Ao passarmos pelo setor de desenho, Montefortes apontou para uma garota de pé ao lado de uma estagiária.
— Ali fica a Alice, um doce de pessoa, a dona do melhor café da empresa.
Alice deu um sorriso simpático e aproveitou para me acompanhar com o olhar. Eu também olhei para ela, disfarçando o máximo que podia. É aqui que entra a minha segunda regra: a da Aleatoriedade. Eu não escolho quem imito. Funciona assim: se estou imitando alguém e surge outra pessoa que, por qualquer motivo, me chama mais a atenção, já era. Meu cérebro muda de canal na hora e eu passo a copiar a nova pessoa. Por isso, evito ao máximo correr o risco de passar perto de gente deprimida ou irritada. Falar com a Alice exige malabarismos sérios. Afinal — e eu sei que você já reparou nisso — rola uma química óbvia entre nós. Só ela não percebeu ainda.
Montefortes abriu a porta da nossa nova sala com um gesto triunfante. É preciso admitir: o espaço era o melhor do andar.
— Esse é o aquário de vocês — anunciou o chefe. — Telas enormes para ligar os computadores, mesa grande para espalhar a bagunça, soltar a criatividade e o resto vocês vão descobrindo. Daqui a pouco, o diretor de arte vem falar com vocês.
O chefe deu um tapinha no meu ombro.
— Tavo, agora é contigo.
Ele desapareceu pelo corredor na mesma velocidade com que apresentou o projeto, deixando os papéis com o resumo da história em cima da mesa. Agora, eu estava sozinho com o novato.
Aproveito para te explicar a Terceira Regra: a da Persistência. Eu continuo imitando o jeito de alguém enquanto tiver alguém conversando comigo. A pessoa original que eu copiei pode até ir embora, mas, desde que haja qualquer outro ser humano falando por perto, o efeito permanece. Já passei um dia inteiro preso no sotaque de um turista e, em outros dias, perdi a conta de quantas vezes mudei de personalidade.
Puxei conversa com o Gus sobre os projetos recentes e os roteiros que ele já tinha escrito. Falamos de gostos em comum, coisas de trabalho e amenidades. Depois de alguns minutos dessa conversa fluida, o silêncio finalmente se instalou na sala quando pegamos as folhas do resumo para ler.
O projeto era promissor, do tipo que eu domino bem e que dava para colocar o sarrafo bem alto. Fiquei tão empolgado devorando cada página e anotando ideias na minha mente que o mundo ao redor simplesmente sumiu. Eu estava focado, confiante e totalmente desligado do relógio. Quando terminei a leitura, olhei para o Gus, pronto para começar uma chuva de ideias brilhantes. Abri a boca cheio de autoridade:
— ...!
Nada. Nem um sopro de vento saiu.
Arregalei os olhos. E agora?! Olhei para o relógio da parede com o coração acelerado. Droga! Eu tinha calculado o tempo totalmente mal. O silêncio tinha engolido a sala por mais tempo do que eu imaginava.
Esqueci de te contar a Quarta Regra: o Reset. Se eu ficar treze minutos exatos sem escutar ninguém que esteja fisicamente do meu lado, o meu sistema desliga. Eu perco a voz completamente.
Como a fala não estava funcionando, usei a técnica que sempre me salva: a mímica natural.
Estalei os dedos para chamar a atenção do Gus. Ele levantou os olhos. Fiz um sinal de positivo com o polegar. Ele devolveu o sinal com outro joinha idêntico e voltou a ler o papel. Bati uma palma rápida; ele olhou de novo; fiz um gesto com as mãos como quem diz: “E aí?”. Gus sorriu, apontou para o papel e me deu mais um joinha. O cara parecia o mestre dos joinhas.
Era hora de ativar o Plano B de contingência. Olhei pela parede de vidro do aquário e vi que a copa estava cheia de gente. Se eu desse um pulo até lá e escutasse qualquer conversa animada, aquela palhaçada de comunicação por mímica acabaria.
Dei outro estalo de dedos para o Gus, apontei para a porta indicando que ia sair e ele, claro, já estava com o dedão levantado para cima.
Antes de colocar o pé no corredor, preciso te explicar a Quinta e última regra, a Tapa-Buraco: se passarem os treze minutos do Reset e eu estiver sem voz, a primeiríssima pessoa que eu escutar falar vai ser a minha nova voz. Eu viro o clone dela.
Saí da sala focado na copa, mas a Lei de Murphy nunca falha. No meio do caminho, esbarrei com a pior pessoa possível: o cara mais rabugento do setor de Recursos Humanos.
— Presta atenção, quase me derrubou! — resmungou Severo, sem mudar o seu tradicional tom de poucos amigos.
Já era. Senti o estômago afundar. Eu sabia que, se abrisse a boca naquele momento, ia falar igual a ele. Ir para a copa agora seria um suicídio social: eu ganharia a fama instantânea de ser o "Severo II". Olhei em direção ao banheiro e percebi que, para chegar lá, teria que passar pela mesa da Alice, que agora estava sozinha. O jeito era arriscar.
Dei uma corridinha olhando fixo para a tela do telefone, fingindo estar ocupadíssimo com alguma mensagem urgente. Passei voando pela Alice e, finalmente, me tranquei em um dos reservados do banheiro. Seguro.
Peguei o celular, liguei o cronômetro e suspirei. Agora era só esperar o tempo do Reset zerar completamente em silêncio. Quando o relógio marcasse treze minutos, a voz do Severo sumiria do meu sistema. Aí era só sair, passar por qualquer grupo conversando normalmente no corredor e o problema estaria resolvido. Não tinha como dar errado.
Eu só não contava com o destino. Não demorou muito, e a porta principal do banheiro se abriu. Passos pesados. Era o próprio Severo, que entrou no ambiente resmungando e reclamando da vida sozinho. O som da voz dele ecoou pelos mármores das paredes, estragando todo o meu plano. Não tinha mais jeito: eu precisava sair dali e voltar para o aquário antes que o estrago fosse ainda maior.
Saí do reservado passando por Severo em silêncio. Pelo menos ao me ver, ele parou de reclamar sozinho como um maluco. Ao sair do banheiro, vi que, para a minha sorte, a Alice não estava mais na mesa. Menos um problema. Caminho livre para eu andar sem vontade de chegar.
Voltei para a nossa sala fechada e gesticulei novamente para o Gus, torcendo desesperadamente para ele abrir a boca e dizer qualquer coisa que limpasse o veneno do RH da minha garganta. O mestre dos joinhas não disse um pio. Sem aguentar mais o silêncio, resolvi arriscar uma frase curta para testar o estrago:
— O que achou do resumo?
Minha própria voz me assustou. Saiu um tom ríspido, cortante e amargo, exatamente como o do Severo. Gus fez uma cara de quem não entendeu nada e, para variar, rebateu com mais um sorriso amarelo. Aquilo me irritou.
— Não tem nada a dizer? — insisti, incapaz de controlar a grosseria que parecia ter colado nas minhas cordas vocais. — Achou legal ou péssimo?
Antes que ele pudesse gesticular outro joinha, a porta se abriu num estrondo. Fontes, o diretor de arte do projeto, entrou na sala falando de forma compulsiva, como se as palavras estivessem apostando corrida.
— Opa, pessoal! Você deve ser o Gus, o cara novo. Bem-vindo ao time! Eu sou o Fontes, faço a direção de arte desse projeto e vamos trabalhar juntos. Temos pouco tempo, né?
Gus abriu um sorriso de orelha a orelha para o Fontes e desatou a falar em uma velocidade impressionante:
— Sim, sou eu! Li o resumo e achei muito legal, cheio de possibilidades. A gente pode fazer umas pesquisas, levantar material, fazer consultas com inteligência artificial, estudar o mercado, ver o que o pessoal está gostando nas redes sociais e aí juntamos tudo para fazer uma chuva de ideias e espremer o que tiver de melhor!
Olhei para aquela cena e pensei comigo mesmo que tinha rolado uma implicância à primeira vista entre nós. Ou melhor, à segunda vista, já que minutos antes eu achava o cara um parceiro perfeito. Mas o pior de tudo foi que, em vez de o meu cérebro mudar de canal e me deixar tagarela como o Fontes, o mau humor do Severo persistiu.
É o clássico azar de quem tem superpoderes genéricos: as coisas nunca funcionam do jeito que eu preciso. Eu já estava até prevendo que o encosto do cara do RH não ia sair de mim tão cedo.
Depois de um tempo escutando os dois falarem tão rápido que mal dava tempo de respirar, o diretor de arte deu um tapinha nas costas do novato e foi embora.
— Parece que vocês são almas gêmeas, hein! — comentei. A essa altura, eu não estava apenas fingindo: eu já estava realmente de mau humor.
A resposta do Gus ignorou completamente o meu estado de poucos amigos. Ele simplesmente ligou a sua metralhadora de frases emendadas e continuou falando sozinho por longos minutos. Até que, do nada, ele parou quase cortando o próprio pensamento no meio. Não que o monólogo dele fizesse muita falta, mas foi estranho. Ele interrompeu o falatório bruscamente e pegou o telefone com uma pressa absurda, como se precisasse checar uma emergência de vida ou morte.
O expediente finalmente estava chegando ao fim. Tentei soltar um clássico "Já deu por hoje, bora continuar amanhã!", mas cadê a voz? Nada. O silêncio tinha voltado. Dei duas batidinhas com os dedos no meu pulso, indicando que já estava na hora de ir embora. Arrumamos as nossas coisas rapidamente para dar o fora daquela sala.
Gus saiu primeiro e, logo no corredor, um colega começou a falar com ele de forma amigável. Quando passei por eles, me encolhi todo, imaginando que ia soltar um "Até amanhã" com a voz assustadora do Severo. Mas, para minha surpresa, o que saiu da minha boca foi um simpático:
— Até amanhã, pessoal!
Senti um alívio instantâneo no peito. A nuvem negra do RH finalmente tinha ido embora. A essa altura, eu só queria a minha casa depois de um dia tão esquisito. Como se todos os meus dias também não fossem uma bizarrice total?
Chegando no meu prédio, o porteiro me deu um boa-tarde que já estava quase virando boa-noite. O lado bom é que ganhei um estoque de voz temporária para usar em casa. Vai dar até para mandar algumas mensagens de áudio no celular em vez de ficar só no texto. Tem uma galera que sempre me cobra dizendo que eu nunca mando áudios. Mal sabem eles o motivo.
Finalmente no meu apartamento, a única preocupação real era a minha geladeira completamente pelada. O jeito foi pedir comida por um aplicativo. Super fácil, bastam alguns cliques e o jantar está resolvido.
Enquanto espero o entregador, fico aqui no sofá fazendo uma retrospectiva do dia. Há algo bem intrigante no fato de eu ter ficado sem voz enquanto lia os papéis ao lado do Gus. Pensando bem, é como se a Regra da Persistência simplesmente não tivesse funcionado perto dele. Será que toda regra tem a sua exceção ou tem algo nessa história que eu ainda não entendi?
Meus pensamentos são cortados pelo toque estridente do interfone. Atendo o aparelho:
— Oi, Seu Tavo! O entregador chegou aqui.
Em vez de arriscar a minha própria voz e falhar miseravelmente na frente do porteiro, pego o celular e coloco para tocar um áudio que já deixo gravado estrategicamente para essas ocasiões:
“— Oi, Ribamar! Já estou descendo.”
Desligo o interfone com um sorriso no rosto. Fala sério, você tem que admitir: eu sou muito esperto.
Novo dia no escritório. Estou em uma conversa animada no corredor com uns colegas quando Gus chega também entusiasmado.
— Oi, Tavo, tudo de boa na lagoa? — Comentário típico do sujeito do marketing com quem ele trocou umas palavras quando o vi saindo do elevador. É fascinante como as pessoas pegam o jeito de falar dos outros. No fundo, todo mundo meio que acaba imitando os amiguinhos.
— De boa, bora deslanchar esse início? — Todo projeto é assim: enquanto está na folha em branco, parece que vai ficar assim pra sempre.
Assim que fechei a porta de vidro, aproveitei o tom descontraído:
— Cara, queria te pedir desculpas pelo mau humor de ontem no final do dia. Sei lá o que me deu, voltei do corredor meio ríspido.
— Que isso, cara, leva de boa! — Gus respondeu sorrindo. — Primeiro dia de briefing é sempre tenso, eu também estava meio travado. Vamos focar nesse RPG que o prazo está curto.
Nós nos sentamos, abrimos os laptops e espalhamos as anotações sobre a mesa grande. Por alguns minutos, a gente debateu algumas ideias soltas sobre a estrutura das missões do Reino de Flora. A sintonia era ótima, a matriz descontraída parecia funcionar perfeitamente.
Até que o diálogo cessou. Nós dois mergulhamos focados em pesquisas na internet e conversas com agentes de IA.
O silêncio tomou conta da sala dedicada. Um minuto. Cinco minutos. Treze minutos.
A validade da última interação expirou. Meu cache zerou.
Olhei pro Gus, esperando que ele dissesse algo sobre o que tinha achado do projeto. Ele desviou os olhos para o monitor, depois para a janela, e voltou a olhar para mim com um sorriso irritante. Já vi que o dia estava começando bem.
Já irritado por dentro, fiz um gesto curto com a mão, um sinal mecânico de "vai, continua você, fala algo". Ele levantou o dedo como se tivesse tido uma ideia e voltou a mergulhar na tela do monitor.
Nisso, uma sombra se moveu atrás do vidro. A porta se abriu de leve e Alice colocou apenas a cabeça para dentro, com um sorriso caloroso.
— Oi, meninos! Vocês querem café? — perguntou ela, com sua voz doce e natural.
Respondi no automático, no exato milésimo de segundo em que absorvi a amadíssima voz dela:
— Ah, eu adoraria, Alice! Muito obrigado, você é um anjo — respondi, usando um tom de voz incrivelmente meigo e carinhoso.
Gus, pegando a mesma onda no mesmo instante, emendou com igual fofura:
— Nossa, eu também quero muito! Um café agora ia ser maravilhoso, obrigado pelo carinho.
Alice sorriu, achando a dupla uma fofura só.
— Combinado, já trago para vocês — avisou toda meiga, fechando a porta em seguida.
Achei super estranha essa fofura toda com a Alice. Que intimidade é essa pra quem se conheceu ontem? Voltamos a falar sobre o RPG, só que agora a reunião parecia um chá da tarde infantil.
— Então, meu querido... — começou Gus, com um tom de voz super doce e gentil. — Eu estava pensando que a mecânica de combate do Reino de Flora poderia ser um pouquinho mais lúdica, sabe? Para combinar com o visual das plantas.
— Ai, concordo totalmente, meu amigo! — respondi, com a mesma doçura meiga, embora por dentro a minha mente estivesse gritando de desespero. — Acho que se colocarmos muitos termos técnicos, vai quebrar toda essa magia fofa que o projeto pede.
A porta se abriu novamente. Alice entrou equilibrando duas canecas, deixando o ambiente ainda mais carregado de fofura.
— Aqui está, meninos. Cuidado, que está quentinho.
— Ai, muito obrigado, Alice! Você salvou o nosso dia — agradeceu Gus, transbordando carinho.
— Imagina! Bom trabalho para vocês — ela respondeu e saiu, fechando a porta.
Rapaz, que abusado! Com jeito carinhoso e meloso, ainda por cima, e com a minha crush. Aquilo tinha passado totalmente dos limites do meu roteiro social de veterano seguro. Olhei para Gus, ainda operando no modo Alice gentil.
— Cara... — perguntei tentando soar firme, mas saindo com uma voz doce e cheia de mel. — Você, por acaso, está a fim da Alice?
— Não, que isso, nada a ver! — Gus respondeu na hora, com a mesma voz doce e gentil. — Ela é só uma colega muito fofa. Por que a pergunta?
Perdi a paciência com o meu próprio travamento e disparei na lata, com os olhos arregalados, mas ainda mantendo o tom gentil forçado pelo sistema:
— Então por que você está falando com esse jeitinho tão doce e carinhoso com ela e agora comigo?
Gus piscou, confuso.
— Não sei... Acho que ela é contagiante, sei lá...
Antes que a discussão prosseguisse, a maçaneta girou com força e Montefortes entrou como um furacão, quebrando o tom meigo da sala com sua hiperatividade habitual.
— E aí, pessoal! Como estão as coisas por aqui? Já saíram as primeiras mecânicas? O tempo voa!
O estímulo do chefe atropelou o resíduo da Alice. Liguei o modo animado instantaneamente.
— Super bem, chefe! — respondi com um sorriso largo e energia lá no alto. — Já estamos começando a nos entender perfeitamente aqui dentro!
— Isso mesmo, Montefortes! — Gus emendou, gesticulando com empolgação corporativa. — O ambiente aqui é ótimo e o trabalho vai ficar simplesmente show. Pode confiar! O café da Alice é como você prometeu e já até disparou novas ideias!
— É assim que eu gosto! Criatividade no talo! — o chefe bateu palmas e saiu correndo para a próxima baia, batendo a porta.
O silêncio voltou. Olhei fixamente para o novato e joguei a bomba de uma vez:
— Você está me imitando?
Gus recuou um passo, pego de surpresa.
— Eu não! E você está me imitando?
— Eu também não! Quer dizer... um pouco — confessei, os dentes cerrados.
Gus olhou para os lados, respirou fundo e soltou os ombros.
— Cara... não sei por que isso acontece. Mas eu, sem querer, pego o jeito de falar das pessoas. É automático. E, se eu fico muito tempo sozinho ou sem ninguém falar perto de mim... eu simplesmente perco a voz. Eu travo. Fico mudo.
Congelei. Então o dia de ontem começou a fazer sentido: o silêncio que aconteceu ontem após o briefing, a cara de alívio do Gus quando Fontes entrou na sala falando sem parar... Isso quer dizer que não sou o único no mundo? Será que eu também não sou o único a gostar de morder limão puro? Finalmente, um dia me sentindo mais normal. Mas será que ele percebeu alguma coisa comigo e está me zoando?
— Você está brincando comigo? — murmurei. — Você também?
— Como assim “também”? — Gus franziu a testa.
— Então, quando te conheci, você estava imitando o chefe?
— Isso, mas não é de propósito.
— Então aquela coisa de me responder com mímica é porque você não consegue me imitar e eu não consigo te imitar?
Essa pergunta era até mais pra mim mesmo que para ele.
Então chegamos a uma nova regra: Cópia não copia Cópia. Essa é bem simples e direta.
O mistério das esquisitices do novato está resolvido: ele é tão esquisito quanto eu. Mas não parece muito esperto com o mimetismo. Hora de investigar essa doideira.
— Já faz seis anos que sou mimético. E você? — perguntei, direto.
— Sério? Tudo isso! — Gus respondeu sem responder.
— Sim, sério! E você, há quanto tempo? — Odeio quando não me respondem logo.
— Eu achei que era algo temporário, que logo iria passar, tipo uma gripe. — Gus ainda não me respondeu!
— Tipo gripe, então está assim há só uma semana? — Gripe pra mim são três dias, mas vai que a dele é mais demorada.
— Não… Muito mais… — Minha paciência sendo testada ao limite.
— Muito mais? Um mês? Um ano? Dez anos? Fala logo! — Se demorar mais, os dois ficam sem fala e eu mato um aqui.
— Há uns seis meses. — Gus falou como se fosse óbvio.
Finalmente consegui um dado real. Eu, com seis anos, e ele, com seis meses. Que lógica tem isso? As regras são tão certinhas que tem que existir uma para isso começar a acontecer.
O que eu posso fazer? Jogar um prompt para um agente de IA fazer contas pra mim:
“Eu sou mimético há seis anos e um amigo é mimético há seis meses. Quais as relações possíveis para explicar essa diferença de tempo de forma matemática?”
O bom de escrever para agente de IA é que ele não me chama a atenção para acentos, caixa alta e baixa nem nada parecido.
Em segundos, ele me devolve umas relações de 1/12 entre 6 e 72, ou 1100% de diferença. Isso significa: nada!
Que tal se for algo astrológico? Alinhamento dos planetas misturado com data de nascimento, numerologia de nomes. Se vocês ainda não repararam, os nossos nomes têm uma combinação meio ridícula.
Preciso de alguém que entenda tudo de astrologia e numerologia. Alice deve saber. E, se os astros estiverem de bom humor, vai ser ótimo conversar com ela sobre isso. Na verdade, conversar com ela sobre qualquer coisa é ótimo.
— Gus, preciso que você me mande por mensagem a data, a hora e o local do teu nascimento, nome completo, e a data, a hora e o local da sua transformação. — Como se alguém soubesse disso de cabeça. A resposta não foi nada surpreendente: um sinal de joinha.
Os dias estão passando, o projeto meio travado e só agora Gus conseguiu todos os dados para fazer até um mapa astral. Confesso que, para mim, também não foi fácil achar a certidão de nascimento para ver a hora em que nasci. Agora, o plano é chegar na Alice em um momento, digamos, auspicioso!
Para começar, preciso conversar com o cara mais chavequeiro da empresa. Bruno é o tipo de cara autoconfiante, que chega em todas sem medo de levar toco. Tudo bem que é um chad. Tipo de cara bonito, herdeiro e que trabalha por esporte. Mas é a melhor opção pra hoje.
Claro que Gus não pode falar com ele junto comigo. Acho melhor ele falar com um dos caras de TI, de preferência um que saiba programar C# com Unity. Esses são bem nerd raiz, oposto dos chads.
Hora de pôr o plano em ação. Eu e Gus estamos zerados. Aponto o cara de TI que ele tem que puxar assunto e, em seguida, vou em direção ao chad. Faço um cumprimento com a mão e ele, claro, fala comigo.
— Fala, meu irmão, tô sabendo do projeto novo na tua mão. — Não vejo nada demais no jeito de falar dele, mas vai que a mulherada percebe e eu não!
— Beleza, Bruno, sempre cheio de estilo. O projeto tá tranquilo; quando estiver mais adiantado, vou reunir o pessoal para pedir opinião. Depois a gente se fala. — Já consegui o que precisava e agora é ir ver Alice.
Ela estava com uma estagiária, e eu precisava me livrar dela para falar de um assunto particular, para não dizer maluco.
— Olá, tudo bem com vocês? — A estagiária deu um sorriso pra mim. Será que o chad tem um borogodó mesmo? — Eu sei que estou interrompendo, mas posso falar um pouco a sós com a Alice? — Ela troca um olhar com Alice e sai com aquele sorriso de cúmplice de amigas.
Nisso chega Gus, após uma breve interação com o cara fera em C# com Unity.
— Opa, tudo bem? Posso entrar na conversa de vocês? — Ele quase pede desculpas para participar da conversa que também é dele. Acho que exagerei em mandar ele falar com o cara de TI antes de se juntar com a gente.
— Digam, rapazes, o que vocês precisam. — Alice pergunta sem nem imaginar o que precisamos realmente.
— Olha, Alice, você entende de mapa astral, esoterismo, essas coisas legais e misteriosas, certo? — Rapaz, como estou falando bonito!
— Entendo alguma coisa sim. Querem que eu jogue tarô para vocês ou que leia a borra na xícara de café? — Se soubesse que ela era tão empolgada com esse assunto, já devia ter me aventurado há tempos.
— Seria legal, mas agora precisamos de outra coisa. Tenho umas datas que parecem meio aleatórias, e a gente queria saber se tem relação com o nosso horóscopo ou coisa parecida. — Mostrei a planilha impressa com todas as datas, locais, nome dos pais e tudo mais que achamos que era importante.
Alice olhou, fez um beicinho com os lábios e…
— Que doideira, pra que é isso? — Ela encarou a gente por alguns segundos e desistiu de esperar uma resposta. — Tá bom, vou ver o que consigo.
— Alice, você é um amor. — Me afastei andando de costas, ainda olhando pra ela, antes de me virar em direção ao aquário.
— Um amor mesmo, até mais! — Gus, que tinha ficado sem entrar na conversa, saiu com esse tchau bem insosso para a minha querida Alice.
O plano foi um sucesso. Agora é esperar e ver o que acontece.
Tem gente que gosta de ficar só no computador, organizando tudo em planilhas e anotações em tablets. Eu prefiro anotar em papéis coloridos, recortados, espalhados, rabiscados — folhas soltas que depois são presas por clipes ou vão para pastas transparentes. Para isso, caía bem uma tarde de compras na papelaria. Aqui perto tem uma galeria com uma papelaria ótima, e ainda dá para dar uma voltinha rápida na rua para quebrar a rotina.
Eu e Gus pegamos o elevador, passamos por um monte de gente conversando normalmente, sem nenhuma intercorrência.
Mas, ao sair do prédio e quase chegando na papelaria, tinha um pipoqueiro. Dei aquela congelada de medo e parei.
— Gus, vamos atravessar a rua para não passar perto do pipoqueiro. Esse cara tem um bordão muito engraçado e que vai ferrar a gente.
Combinamos de atravessar a rua, passar bem longe do pipoqueiro e atravessar de novo mais adiante. Enquanto esperávamos o sinal fechar para o trânsito, chega o Fontes falando com a gente.
— E aí, rapaziada! Pra onde vocês estão indo? Estão matando aula! — A gente estava mesmo com cara de quem estava fazendo coisa errada.
— A gente tá indo na papelaria comprar material para o projeto. — Gus respondeu, sem saber do perigo.
— Ah, vou com vocês, então. Nem precisa ir muito longe: tem uma papelaria ótima ali na frente, na galeria perto da esquina. — Fontes falou, fazendo um sinal para acompanhá-lo. — Vamos lá, e eu mostro onde é. Preciso comprar pilhas pro mouse e foi bom encontrar vocês, porque estou tendo uma ideia para o projeto e queria a opinião de vocês. É algo que gosto muito de fazer, pode ficar super legal e dar uma identidade boa. — Nisso, já estávamos passando pelo pipoqueiro, e o Fontes parou. — Querem uma pipoquinha?
O pipoqueiro encheu os pulmões de ar para soltar o seu bordão: “pipoqueiiiiiro!” — Eu e Gus saímos correndo para dentro da galeria, deixando o Fontes para trás. Cheguei primeiro, e Gus logo atrás.
— Essa foi quase! — respirei aliviado.
— Foi mesmo, eu vou ali procurar os papéis “coloriiidos”.
Acho que ele não correu tão rápido.Segurei a risada.
De volta ao escritório, percebi que os dias estavam passando muito rápido e que tínhamos que adiantar nossas poucas ideias e acelerar o projeto. Gus foi tomar um café e reparei que ele estava conversando com a Alice e com um cara da equipe de artes. Um tipo todo tatuado que parecia até membro da yakuza. Demos essa pausa porque já estávamos há um tempão só nos comunicando por texto. Sou ótimo em Imagem e Ação, mas fazer brainstorm com mímica é demais pra mim!
Como já era de costume, Fontes, o querido e tagarela diretor de arte, entra na sala.
— Lembram que, quando encontrei vocês na rua, eu disse que tinha uma ideia? Estava pensando em criar uma fonte nova para o jogo, o que acham? Algo meio medieval, mas com um ar moderno, misturando épocas e culturas, mas que sejam icônicas, um microuniverso mágico, mas com design com as trends de hoje. — Esse monte de falação apenas para eu saber que Fontes iria criar uma fonte!
— Super legal, vai dar uma personalidade única. E podemos também ter uma iconografia, talvez até um sinete, aquele treco que era tipo um carimbo para fazer os lacres de cera em correspondências. — Nem sei por que falei isso tudo, mas saiu.
— Boa, cara. Pensei agora que podíamos ter umas runas, que tal? Runas têm um ar de mistério e um sentido espiritual forte, com cada símbolo possuindo um nome e uma energia própria, ligada a elementos da natureza ou da vida prática, como riqueza, gelo ou sol. — Essa ideia era realmente melhor que uma fonte nova.
— Fontes, essa ideia das runas é fantástica, parabéns, mandou muito bem! Pensei agora que dava até para eu pôr um easter egg pessoal meu como uma dessas runas. Eu tenho uma tatuagem bem legal. — Peguei uma folha de papel e desenhei rapidamente. Sempre tive facilidade para desenho. — É um coelho com uma coroa. Olha como ele é estilizado, tem essa pegada medieval, mas poderia facilmente ser um logo ou ícone atual.
— Uau! Exatamente algo assim que imaginei. Muito cara de povo viking, nórdico, com um tom de bruxaria, misticismo. Deixa eu tirar uma foto desse desenho. Fantástico, show de bola, vou seguir ela como modelo para fazer um conjunto. — O cara já é animado, com motivo então, ninguém segura.
Fontes saiu em disparada, doido para criar seus novos caracteres alfabéticos. Logo em seguida, Gus entra na sala depois de um descontraído café na copa. Não temos o Hexa, mas a copa é nossa!
— E aí, o que aconteceu que o Fontes saiu todo alegre daqui de dentro? Fecharam alguma ideia genial que ainda não estou sabendo? — Senti um certo ciúme no novato por ter ficado de fora. Quem mandou ficar fazendo chacrinha na copa.
Comecei a minha explicação no estilo Fontes, com muitas vírgulas e poucos pontos finais.
— Fontes queria fazer uma nova fonte, a cara dele isso, mas começamos a trocar ideias e... — Gus me interrompe sem pedir licença.
— Que desenho é esse aqui na mesa? — perguntou, apontando para o desenho que fiz da minha tatuagem.
— Então, como eu estava falando antes de você me interromper, ele queria fazer um alfabeto criando uma fonte nova, misturando antigo com novo, místico com tecnológico e coisa e tal, e ele teve a ideia de fazer umas runas. A minha ideia em cima da ideia dele é usar uma tatuagem que fiz há um tempo atrás como inspiração e deixar uma marca pessoal minha no projeto, algo escondido, uma referência oculta que só a equipe vai saber de onde veio. — É inegável que ter um easter egg pessoal nesse projeto inflou meu ego.
— Eu tenho uma tatuagem igual a essa! — Gus me quebrou. Minha alegria de exclusividade foi por água abaixo.
— Não pode ser! Esse desenho eu vi num livro antigo em um brechó há um tempão atrás, há mais de sete anos. O lugar era um buraco cheio de coisas velhas que entrei por curiosidade. Era cheio de coisas velhas e tinha um livro antigo em uma prateleira; abri ele em uma página qualquer e, nessa página, tinha a imagem desse coelho com coroa. Achei legal e fotografei. Eu já estava pensando em fazer uma tatuagem, me lembrei desse desenho e, na época, achei que tinha tudo a ver. — Pelo jeito, o desenho que achei superexclusivo deve estar no Pinterest.
— É um brechó que tinha um daqueles postes de barbeiro, com as faixas vermelhas e brancas? Mas que não tinha a listra azul? — Gus perguntou, incrédulo.
Nisso, eu já estava com o celular na mão, a imagem da tatuagem selecionada e fazendo uma busca por imagens.
— Sim, esse mesmo. A falta da listra azul foi o que me chamou a atenção. Um lugar meio sinistro, do tipo que ninguém normal entra ali. Pelo menos eu normalmente não entraria, mas entrei. — Respondi meio no automático, vendo que a minha imagem do coelho não tinha resultado igual na busca.
— Eu também vi esse livro nesse brechó. E também o abri na página que tinha o coelho. Fotografei e, um tempo depois, fiz a tatuagem. — Ele levantou a manga da camisa e mostrou a imagem na pele.
Virar mimético já é improvável. Encontrar outro igual, menos ainda. Trabalhar na mesma sala seria impossível. E ainda por cima ter a mesma tatuagem não pode ser só coincidência.
Dormi quase nada à noite, bolado com a história da coincidência das tatuagens. Estou acostumado a não entender certas coisas, mas isso parece que o destino está exagerando. Dentro do aquário, Gus não parece se incomodar tanto quanto eu. Ele deve achar que isso é passageiro e que, com o tempo, vai passar sozinho. Depois de seis anos, já não tenho tanta esperança.
Vejo Alice chegar perto do aquário. Deixamos a porta aberta para escutar os burburinhos do lado de fora. Ela dá umas batidinhas no vidro e entra.
— Sabe que eu estava agora mesmo conversando com o Fontes? — Ela falou de um jeito meio mãe antes de dar bronca nos filhos. — Ele me mostrou uns desenhos da tipografia que está fazendo. Eu reconheci uma das figuras porque é a mesma que o Gus me mostrou ontem, na copa, quando a gente conversava com o Enzo. — Enzo é o cara todo tatuado que eu disse que era da máfia japonesa. — Mas quando eu falei que era a tatuagem do Gus, ele disse que não, que a tatuagem era do Tavo! — Dei uma congelada, e Gus ficou parado como uma estátua.
Alice olhou para mim, depois para o Gus, e cruzou os braços.
— Vocês são irmãos? Esses nomes, Gus e Tavo! É pegadinha dos pais de vocês?
Levei as duas mãos para coçar a cabeça, porque estava difícil de explicar.
— E aquelas datas aleatórias? Têm a ver com tudo isso? — Ela já está ficando um pouco irritada.
— Os nomes eu realmente não sei explicar, mas as datas e as tatuagens têm umas coisas bem estranhas, sim. — Como vou explicar essa doideira sem parecer maluco e alguém querer me internar?
— Sabia que tinha coisa aí! Desembucha! — Minha crush, de banana não tem nada.
— A gente é mimético! — Gus sempre falando na hora errada.
Preciso remendar antes de ela virar as costas e ir embora.
— A gente, de forma involuntária, imita as pessoas, tipo uma maldição. As datas que a gente te deu são os dias em que isso começou a acontecer com cada um de nós. E as tatuagens são uma coincidência: a gente viu a mesma imagem em um livro de brechó, tirou uma foto e fez as tatuagens. — Acho que expliquei de forma clara, organizada e sem dupla interpretação.
— Entendi, isso faz parte do roteiro para o novo jogo. Vocês foram a um brechó, viram um livro legal com uma imagem também legal e, juntos, fizeram uma tatuagem de henna para servir de laboratório, como os atores fazem. E, no roteiro, os personagens são miméticos. É isso? — Alice parece que não entendeu algumas coisas…
— É quase isso, mas não tem nada a ver com isso! Não tem relação com o projeto. A gente não é irmão, nunca tínhamos nos visto antes de o Gus chegar aqui. E teve algum fenômeno que não dá para explicar: nas datas que te mostramos, passamos a imitar o jeito de falar das pessoas. Eu, há seis anos, e o Gus, há uns poucos meses.
Gus balançou a cabeça concordando. Alice sentou em uma poltrona no canto da sala e ficou pensativa, olhando para a gente, como alguém preparando uma pergunta matadora.
— Então vocês estão me dizendo que são vítimas de uma maldição? — Agora parece que ela entendeu.
Balançamos a cabeça concordando.
— Cara, adorei isso! Sempre quis participar de uma história fantástica. A gente combina assim: vocês vão me dizer tudo o que sabem e ninguém mais pode ficar sabendo. Fica só entre a gente. Agora eu sou cúmplice de vocês! — Ela ficou eufórica. Isso parece bom… será?
Contamos os detalhes e algumas desventuras dos últimos dias, e ela adorou cada minuto. Ela só pediu uma pausa para pegar uns cafés, saiu da sala, e eu olhei para o Gus. Só no olhar, concordamos que parece bom ela poder saber de tudo.
Alice voltou depois de um tempinho lá fora.
— Quero entender, então me contem detalhes! — Ela estava mais focada agora. — Vocês disseram que tiraram uma foto, deixa eu ver!
Ela já é a líder da equipe de artes; agora baixou o espírito de líder de investigação paranormal. Eu e Gus começamos a vasculhar as imagens na galeria do celular para achar as fotos.
Achei bem fácil e encaminhei pra ela. Imediatamente soou a notificação de recebimento no telefone dela, e ela logo começou a analisar a imagem. É uma foto bem em close-up, mostrando somente o desenho da runa do coelho com coroa e uns fragmentos cortados dos elementos que estavam ao redor. Ela foi logo dando as impressões pessoais.
— Para começar, parem de chamar de coelho, porque isso é uma lebre! A orelha é maior que a dos coelhos. Imperfeições na espessura... com certeza foi pintado à mão. Você tirou essa foto e nem percebeu, mas tem cara de coisa de grimório bem antigo.
Ela ficou mexendo na imagem, dando zoom, olhando e fazendo cara de concentrada.
— Olha o tom do fundo, meio amarelado, e a tinta... ela perdeu o preto original. Está com uma cor castanha, e tem essa auréola mais escura ao redor do traço. É oxidação ferrogálica. Isso é medieval, da Alta Idade Média.
A segunda notificação vibrou na mão de Alice. Era a foto que Gus tirou. Ela tocou na tela, a imagem abriu por inteiro e os olhos dela se arregalaram. O foco dela mudou instantaneamente do detalhe técnico para a escala do que aquilo representava.
— Caramba, Gus... isso muda tudo. Olha os elementos do layout dessa página.
Ela virou o celular de lado para que eu e o Gus pudéssemos ver também, deslizando o dedo pela tela para apontar os novos elementos numa foto que revelava um pouco da página.
— Não é só um texto corrido. Isso aqui é o que os historiadores chamam de “página-tapete”. Vejam essa borda cheia de nós entrelaçados na margem... é puro estilo insular. E a runa da lebre não está jogada ali no meio; ela é uma letra capitular iluminada. Ela abre o feitiço.
Alice deu um zoom na base da foto, onde as linhas de caligrafia medieval antiga ficaram meio cortadas.
— Vejam como o texto flui ao redor da imagem, como se a própria criatura estivesse sustentando as palavras. O escriba que pintou isso usou vermelho de zarcão nas bordas para destacar o encantamento. O texto meio cortado parece latim.
Ela bloqueou a tela com um estalo seco, olhou para nós dois, e a voz dela baixou um tom, assumindo completamente a postura de líder da investigação:
— Isso não é um diário, e nem um livro de rezas comum. Pelo arranjo desse pedaço de página e pela centralidade do coelho coroado, isso é uma página de invocação ou de transmutação.
Realmente, Alice é a pessoa perfeita para a gente compartilhar o nosso segredo.
— Vocês sabem a data em que aconteceu a mudança de cada um? Deixem-me ver aqui o que me enviaram naquele dia. — Ela parece saber alguma coisa de que eu não faço ideia.
— Procurem nas redes sociais e na nuvem as fotos que tiraram no dia 1 de novembro de 2020. — Alice queria desvendar o mistério de um livro de trocentos anos atrás vendo fotos no Instagram. Vai que!
Todos começamos a rolar os posts até chegar na data, inclusive ela. Nada de mais no meu Instagram, nem no do Gus. Mas Alice mostrou uma foto dela fantasiada que só postou no dia seguinte e disse:
— Óbvio, foi depois do Dia das Bruxas! Como vocês não se ligaram nisso antes? — Óbvio pra ela, porque na época eu não tinha o hábito de comemorar esse dia.
— Agora, 1° de junho e 31 de maio de 2026! — A detetive paranormal estava agora com a confiança no máximo.
Rolamos novamente e dia 31 era um domingo. Ela tinha fotos com as amigas, eu correndo na rua e o Gus no estádio de futebol vendo jogo. Se ainda fosse sexta-feira, daria um ar mais de feitiçaria. Olhamos um para a cara do outro, e Alice foi direta na fala:
— Nuvem!
Voltamos aos telefones para ver as fotos tiradas nesses dias. Mais fotos cotidianas. Resolvemos ver todos juntos as fotos de cada um, primeiro a do Gus, já que era o dia dele. Ele foi passando, e vimos antes, durante e depois do estádio, e uma foto à noite de uma bola branca.
— O que é isso, Gus? — perguntei, achando aquilo super estranho, já que estávamos procurando coisas estranhas!
— Não tá vendo? É uma foto da lua. — Alice respondeu antes dele.
— Sim, estava todo mundo tentando tirar foto da lua nesse dia, e eu fui tentar tirar também para postar, mas não rolou.
— Claro! — exclamou nossa bruxa sabe-tudo. — Sempre que tem Superlua ou Lua Azul, todo mundo tenta tirar foto para postar.
Alice pegou o celular dela e perguntou para a IA:
— Quais as datas de Lua Azul dos últimos 10 anos?
A resposta veio instantânea e não teve surpresa nenhuma. 31 de outubro de 2020 teve uma Lua Azul também!
Alice estava radiante, e ela realmente ficou especialmente bonita assim. Agora ela estava interessada no brechó. Pediu para enviarmos a localização para ela ver logo no Maps. O lugar fica no bairro de Santa Teresa, perto do Largo dos Guimarães. Na foto do Street View, a porta estava fechada. Combinamos de ir lá juntos na manhã do dia seguinte, um sábado, para saber se o lugar ainda existe e se o livro ainda está lá.
Eu e Gus nos encontramos na pracinha do Bairro de Fátima, subimos uma escadaria e depois uma ladeira sinuosa. Numa das curvas, Gus disse que já havia morado ali quando criança. Chegamos antes da Alice no brechó e resolvemos esperar por ela numa lanchonete próxima, para ficarmos ouvindo as pessoas conversarem, já que ela mandou mensagem dizendo que ia se atrasar um pouco.
Ela chegou esbaforida. Reparei que ela fica especialmente bonita assim! Saímos da lanchonete e fomos ao encontro dela.
— Por que está ofegante? Veio correndo? — perguntei, porque não segurei a curiosidade.
— Nada, para chegar mais rápido eu subi pela Ladeira do Castro. É o caminho mais curto, mas praticamente uma escalada.
— A gente veio pela Monte Alegre mesmo... — Foi um chão de curvas e ladeiras sem fim, mas nem foi tão cansativo.
— Bora entrar no brechó mal-assombrado. — Gus pegou o jeito esbaforido dela.
Passamos pelo poste de barbeiro que fica bem na entrada e nos espalhamos pelos corredores do cafofo cheio de quinquilharias. Éramos os únicos ali desde que chegamos, e ficamos esperando Alice. Não tinha entrado nem saído ninguém. E, apesar de ser lotado de cacarecos, não havia poeira nos objetos. Na minha casa tem mais poeira nos móveis do que nesse lugar.
Procurei o livro no lugar onde lembrava de tê-lo visto daquela vez, mas não encontrei. Na verdade, havia várias coisas que tinham me chamado a atenção havia seis anos e que pareciam continuar ali, como um relógio cuco e um gramofone que duvido que funcione. O lugar não deve ter um faturamento muito bom.
O cara do balcão era novo, do tipo com cara de saco cheio. Ficou observando a gente sem falar nada. Pensei na hora que ele também devia ser mimético. Alice foi até o balcão falar com o sujeito.
— Legal o ambiente aqui, gostei! Tem um ar meio esotérico também. Eu me interesso muito por ocultismo, sabe?
O cara do balcão balançou a cabeça que sim, meio que dando uma piscada daquelas bem demoradas. Nem demonstrou empolgação de ter os primeiros possíveis clientes do dia — ou, quem sabe, da semana. Alice não desistiu de puxar assunto.
— Vocês recebem espíritos aqui? — ela perguntou, olhando para ele meio de lado, com os olhos um pouco cerrados. Ela ficou especialmente bonita assim!
— Só recebemos dinheiro, cartão ou Pix. — Se o balconista fez uma piada, segurou bem o riso. E ele não é mimético.
— Boa! Não recebe espíritos, mas é espirituoso! — Ela fez uma carinha tão bonitinha, e o cara continuou com a mesma cara de paisagem. Ela não se abalou. — Eu estou procurando por livros antigos, com um jeito meio místico. Consigo encontrar algo assim por aqui?
— Não trabalhamos com livros. Somente objetos de decoração. — O balconista não podia ter sido mais cara de pau mentindo na nossa cara.
— Bom dia! Eu vim aqui uma vez, há um bom tempo, e tinha um livro. E o meu amigo, quando veio aqui uns meses atrás, também viu o mesmo livro. — Enquanto falava com ele, me virei e apontei para onde lembrava que tinha visto o livro. Quando voltei a olhar para o balconista, reparei que ele tinha um desenho no antebraço, no mesmo estilo do coelho com a coroa.
Gus me chamou para falar longe do balconista.
— Não tenho certeza, mas ele parece estar com a mesma roupa de quando estive aqui da outra vez.
Alice estava tentando puxar conversa com o balconista, mas sem muito resultado. Resolvemos ir embora para sair do cafofo sinistro. Assim que saímos, ela comentou:
— Eu vi lá um baralho de tarô lindo, mas fiquei com medo de levar ele pra casa. — Soltou uma gargalhada daquelas de quase fazer xixi nas calças. Ela fica especialmente bonita assim!
Gus sempre diz coisas erradas, e dessa vez não foi diferente.
— Besteira, Alice! Se for por isso, compra e deixa no escritório.
— Espera aqui que já volto.
Ela foi correndo em direção ao brechó, entrou e, um segundo depois, saiu. Veio correndo em nossa direção. Deve ter ficado com medinho e resolveu voltar para a proteção dos seus heróis!
— Gente, vocês não vão acreditar. Eu entrei para comprar o tarô e achei o livro. O balconista não estava lá. Abri o livro e era a página com a lebre! Tirei a foto da página rapidinho e saí correndo antes do cara aparecer.
— Tá zoando! A gente viu você entrar e sair no mesmo segundo. — Adoro ela, mas eu a vi entrar e sair com meus próprios olhos.
— Olha só! — Ela mostrou a foto da página inteira. Se ela estava procurando uma aventura cheia de mistérios, veio ao lugar certo.
— Vamos voltar lá, que quero ver esse livro agora! — Fui indo na frente, e eles dois demoraram um segundo para me seguir.
Quando fui entrar, o brechó agora era uma barbearia, com clientes sendo atendidos. Fiquei com cara de tacho, com a mão na cintura, não muito diferente de Gus e Alice.
Alice ficou com a missão de decifrar a página do livro de magia que fotografou no brechó. Já eu e Gus tínhamos apenas alguns dias a mais de prazo para entregar o roteiro. Estávamos tão presos em nosso próprio roteiro da vida que não conseguíamos pensar em nada legal para o jogo. Combinamos de nos encontrar com Fontes no aquário para desencantar esse projeto.
No caminho, já tinha começado a pensar em algo que pudesse ser um estopim criativo, mas precisava de bastante energia. Logo quando entramos no aquário, mandei uma mensagem para o tagarela do Fontes para saber se ele já estava chegando, tamanha era a minha ansiedade.
Não demorou. Fontes entrou querendo saber de novidades.
— Opa, pessoal, pode falar, sou todo ouvidos! Quais as ideias novas?
Cortei ele e já comecei a elaborar. Vejam se vocês conseguem acompanhar:
— Pessoal, a vida imita a arte e a arte imita a vida! — Soltei essa filosofia de boteco.
Gus entendeu meio sem entender, mas concordou. Na minha cabeça, era algo assim:
— Pensei na estrutura de frases no idioma turco, que é baseada no modelo SOV (Sujeito-Objeto-Verbo). Isso significa que, em uma frase padrão, o verbo vai sempre para o final, diferente do português, que usa o modelo SVO (Sujeito-Verbo-Objeto). Essa inversão acontece também no japonês, de onde, reza a lenda, George Lucas se inspirou para criar o jeito de falar do mestre Yoda.
Nem Fontes conseguiu acompanhar essa por inteiro.
— Vamos usar a fala como premissa: um feitiço em que quem é enfeitiçado só fala de forma meio invertida. Em vez de dizer “vamos entrar no castelo”, sai “no castelo vamos entrar!”. Isso força o cognitivo dos jogadores a pensar de forma não habitual. Uma camada de neurociência!
Gus já emendou outra ideia.
— Podemos usar uma taverna com um taverneiro que não ri das próprias piadas que faz. E quem entra deixa o tempo congelado do lado de fora.
As ideias iam se encaixando, e estávamos formando um mundo com regras e desafios. A página em branco do projeto estava sendo preenchida com o caos dos nossos últimos dias. E, claro, tinha que colocar a Alice no meio como mais um easter egg.
— E a nossa heroína, a bela doceira da vila, vamos batizar de Alaiz, que significa “de qualidade nobre”. — Alice vem do francês antigo Alaiz, mas ninguém precisa saber disso agora. — E ela faz um trio com o Ferreiro e seu aprendiz. Esse aprendiz pode ser como Parsifal, da história do Rei Arthur, que, apesar de ser considerado meio bobo, tem o coração puro e é o único capaz de resolver tudo no final.
Depois de algumas horas em um ritmo criativo intenso, mandei uma mensagem para Alice para saber se ela tinha descoberto alguma coisa. Ela disse que descobriu algumas coisas, mas que estava pesquisando e que cada agente de IA que ela consultava resolvia umas partes, mas emperrava em outras. Era como se quem escreveu soubesse quebrar os algoritmos de força bruta das IAs. Não entendi direito, mas era o que tinha até agora.
O mergulho de Alice na página do grimório se estendeu pelo domingo, e ela só disse que tem uma solução, mas que ainda não tem certeza, pois uma parte parece que não faz sentido: é um idioma secreto ou uma criptografia medieval desconhecida.
Na segunda, quando cheguei na ToyDev, Alice estava com um sorriso de sobrancelhas levantadas e sem mostrar os dentes, daqueles de gente que tem notícia boa, mas que não é tão boa assim. Em seguida, Gus também chega, e Alice avisa a gente:
— Meninos, já vou lá falar com vocês, tá bom!
Gus deu um sinal de joinha, e eu nem falei nada, só fui para a sala esperar a bomba. Pelo jeito, o feitiço não tem jeito, e vamos ficar sendo cópia dos outros para sempre.
Alice entra na sala, e sentamos para escutar a sentença de prisão perpétua. Ela abre no computador um documento na nuvem:
INSTRUCTIO GENERALIS
Una vox duas facies habet:
una est Maledictio quae vincit,
altera est Revelatio Mentis quae omnia nudabit.
Quod in tenebris incipit, in luce Samhain vel leporis perficitur.
INCANTATIO I: DE MALEDICTIONE
Sub Luna, imago leporis coronati corpori induitur, et expergiscendo flatus silet.
Vox propria entis amittitur, formae alienae captiva sequens, quam singulis momentis audiet.
Rq sfkzrirj coxkdxp, sboyx riqfjx xy xiqbol molixqx, nrbj lifj qfjrfpqf pba fxj klk qfjbp, obmbqbob abybp.
Peg zaye ke fn oeseqiwilnh fn xeweonxm zasixrls. Fdho seubx xb xlweoo xugiqa lrgike fnyeosr oeseqeue aeeep.
— Gente, é assim: o feitiço está em latim. Ele é dividido em três partes. Uma, as IAs traduzem de forma instantânea. A segunda tem uma criptografia muito usada na antiguidade, chamada Cifra de César -3, que troca as letras. Já a terceira parte é que quebrou as IAs. Elas alucinam, cada uma chuta uma coisa. Tentaram todas as criptografias conhecidas e outras combinações, e nada.
Olhei para a folha e, realmente, já dá pra ver que tem umas palavras meio assustadoras, e outras que parecem lixo. Já Gus olhava como se fosse um trabalho de escola com a coleguinha dizendo o que ele precisaria fazer. Ela continuou:
— Eu não falei nada esses dias porque não sei se a solução é essa mesma, porque não consegui resolver tudo.
— Fala logo, Alice! Tem cura? O que a gente precisa fazer? Temos que fazer um ritual na lua cheia? — Eu já estava igual paciente esperando diagnóstico e tratamento, daqueles que falam com médico que demora a dizer o problema.
— Isso, tem cura, e parece algo muito simples. Simples até demais. Por isso desconfio... — Pronto, deu a esperança e jogou água fria em seguida. Gus continuava no grupo do trabalho escolar, prestando atenção na coleguinha.
Alice copiou uma parte, colou no agente de IA e junto escreveu um prompt: “Traduz para mim, por favor”. De forma instantânea, apareceu:
INSTRUÇÃO GERAL
Uma única voz tem duas faces:
uma é a Maldição que vence (ou conquista),
a outra é a Revelação da Mente, que tudo desnudará.
O que começa nas trevas se completa na luz de Samhain ou da lebre.
— Tem duas partes: uma maldição e uma bênção. A maldição parece que vocês já têm. Essa revelação que desnuda a mente eu não entendi. As trevas parecem ser no escuro, ou no cair da noite, e aqui entra algo interessante. — Pronto, Alice conseguiu acelerar meu coração, e finalmente Gus parece que teve uma taquicardia também. Ela tentou explicar:
— Ao cair da noite, a maldição é ativada pela luz, provavelmente da lua cheia, mas não é qualquer lua, é a lua de Samhain e a Lua da Lebre. Samhain é a comemoração do final do ano lunar celta e que deu origem ao Halloween. A lua cheia nessa data só acontece a cada 19 anos, e cai no dia 31 de outubro, a data do Tavo. — Alice falando isso, já me arrepiei aqui.
— E eu, Alice? — Gus perguntou, agora querendo saber da vez dele.
— A sua data é a mesma da Lua da Lebre. É a lua cheia que acontece em maio. Cada lua cheia celta tem um nome, e a de março, mês do início da primavera, é a Lua da Lebre. As lebres eram sagradas para os celtas, e a primavera era quando elas saíam de suas tocas depois do frio do inverno.
— As datas batem, então estamos mesmo com a maldição do livro.
— Agora, um outro pedaço. — Ela copiou e colou novamente na IA, que respondeu na hora.
ENCANTAMENTO I: SOBRE A MALDIÇÃO
Sob a Lua, a imagem de um coelho coroado é vestida no corpo, e, ao despertar, o sopro silencia.
A própria voz do ser é perdida, cativa de uma forma estrangeira que a segue, a qual ele ouvirá a cada momento.
— Esse nem precisa explicar muito, porque vocês já entendem de cara.
Olhei para o Gus, e ele para mim. Não tem como não rir dessa tragédia!
— Agora vem a parte mais importante até agora, mas vejam se não se empolgam. — Dessa vez, demorou uns segundos a mais, mas apareceu:
“Rq sfkzrirj coxkdxp, sboyx riqfjx xy xiqbol molixqx, nrbj lifj qfjrfpqf pba fxj klk qfjbp, obmbqbob abybp.”
Este texto está cifrado com a famosa Cifra de César (onde as letras são deslocadas no alfabeto). Ao mover as letras 23 posições para trás (ou 3 para frente), o texto revelado em latim é:
"Ut vinculum frangas, verba ultima ab altero prolata, quem olim timuisti sed iam non times, repetere debes."
Traduzindo:
"Para quebrar o vínculo, você deve repetir as últimas palavras proferidas pelo outro, a quem você outrora temeu, mas agora já não teme."
— Pronto! Tudo resolvido! — Fiz um high five com Gus.
— Ah, moleque! Fim da urucubaca! Fim do vinculum frangas! — Gus agora já estava mais soltinho.
— Segurem as frangas aí! — Nossa líder cortou o barato. — Ainda tem uma última parte. — Ela novamente copiou e colou no chat com a IA:
“Peg zaye ke fn oeseqiwilnh fn xeweonxm zasixrls. Fdho seubx xb xlweoo xugiqa lrgike fnyeosr oeseqeue aeeep.”
Este texto também está criptografado, mas utiliza um método ligeiramente diferente do anterior. Trata-se de uma Cifra de Vigenère (ou uma variação de substituição polialfabética). Ao decifrar o código, o texto revela mais uma instrução ritualística em latim:
"Nec duas te in speculum in eodem lumine aspicis; tunc verba te altero lingua loqui imperat tenebrae tuas."
Tradução direta para o português:
"E não te olhes duas vezes no espelho sob a mesma luz; então as trevas ordenam que fales com as tuas palavras na língua do outro."
— Pois é, gente, a IA chuta sempre uma coisa diferente nessa parte, sem sentido, a cada vez que pergunto.
Gus deu uma risada e soltou:
— Caraca, os monges medievais quebraram a IA!
Ele é meio idiota por rir da nossa desgraça, mas logo em seguida ele fez uma pergunta bem curiosa:
— Alice, você sabe quando esse livro foi escrito?
— Não dá para saber exatamente, mas, escondido nos desenhos das bordas, está escrito “Vox Domini Canis, Silentium Aquinatis”. Tem aí um trocadilho de “Cão do Senhor” com “Dominicanos”. E Aquinatis é São Tomás de Aquino. Isso coloca o grimório, no mínimo, entre os séculos 13 e 14.
— Tomás de Aquino era o nome do meu colégio quando eu era criança. Ficava ali perto da casa onde eu morava, na Monte Alegre, 168. Fechou em 2003, e dizem que o prédio era muito antigo, que já tinha sido a Casa do Barão de Mauá.
Gus puxando coisas nada a ver, desviando do assunto. Vou trazer a conversa para o que interessa.
— Então, Alice, o que a gente faz? Arriscamos esse antídoto meia-boca sem saber se tem pegadinha? — Sabe como é, pessoal, quando a coisa está ruim, sempre pode piorar.
Alice deu uma suspirada.Chegou o dia da decisão com uma mistura de ansiedade e arrepio. Realmente a última parte do feitiço não teve jeito de quebrar a criptografia. A maneira de descriptografar deve ser uma daquelas coisas bobas que qualquer monge medieval resolve em segundos.
Alice entra na sala tão ansiosa quanto a gente. Então, se imitarmos ela, estamos sendo nós mesmos.
— E aí, gente, trocamos mensagens à noite e agora pela manhã, e ainda não sei o que vocês decidiram.
Nesses últimos cinco minutos, eu e o Gus decidimos que eu testaria o feitiço. Já estou assim há mais tempo, sou mais velho, mas o que pesou mesmo foi que fiquei com vontade de arriscar. O Gus está bem inseguro.
— Tá decidido, vou ser eu. — Além de tudo, ainda ganho pontos no quesito coragem com a minha crush.
— Então, quem você já temeu e não teme mais?
Eu queria que fosse ela mesma, para a gente poder fazer um ritual de ficar um na frente do outro, de mãos dadas, olhando olho no olho. Mas, na verdade, ainda tenho o maior medo de levar um toco dela, então não podia ser com ela.
— Quando comecei a fazer os roteiros aqui, eu morria de medo do Montefortes e do Fontes, porque eram eles que avaliavam as minhas ideias, mas agora fico super à vontade com eles.
Por coincidência ou mágica, Fontes entrou na sala.
— Rapaziada, achei muito legal o que adiantamos no sábado. Temos que continuar nessa vibe; nesse ritmo, conseguimos terminar antes do prazo, que, confesso, está me tirando o sono.
Pelo menos uma vez na vida o Fontes podia ter dito uma frase curtinha. Ele em seguida despejou mais uma penca de observações. Ele saiu sem eu ter prestado atenção em metade do que disse.
Alice me olhava com um olhar de reprovação. Eu já estava ficando uma pilha de nervos. Dei uma saída rápida do aquário para beber uma água e, para variar, esbarrei no Severo, que se comporta como se fosse uma briga de trânsito.
— Cacete, não me viu! — Severo e seu jeito amável de ser;
— Cacete, não me viu! — falei o impulso.
Eu estava tão fissurado em repetir uma frase que essa saiu sem querer. Nem tinha mais medo do Severo, agora era só raiva dele ser tão ranzinza e me atrapalhar toda hora.
Novamente, não podia ir para a copa e destilar um mau humor por osmose. Quando me virei para voltar ao aquário, o Montefortes estava atrás de mim.
— Tavo, me responde rápido: o projeto está no prazo?
Minha estratégia era dar um “sim” o mais curto possível, me concentrando para me expressar com toda a gentileza do mundo e disfarçar o tom ríspido.
— Sim.
Saiu um “sim” zero grosseria. Será que deu tudo certo? Vou aproveitar o momento.
— Sim, chefe. Conseguimos ter muitas ideias e já organizamos quase tudo. Se tiver um tempo, a gente te mostra agora.
Segui com Montefortes para o aquário e, antes de entrar, olhei para Alice, que estava me seguindo o tempo todo com os olhos. Levantei os punhos cerrados em sinal de comemoração, e ela devolveu o sinal.
Ficamos mais de uma hora descrevendo o roteiro, que realmente está supercriativo. Quando Montefortes saiu todo satisfeito, Alice entrou rapidamente no aquário.
— O que aconteceu? Acabou a maldição?
— Cara, tô falando com a minha voz normal, nem acredito. Mostramos o projeto para o Montefortes com o Gus copiando ele e eu sendo eu mesmo! Nem acredito que era só repetir alguém e pronto. E ainda aconteceu justamente com o bendito Severo, que eu evitava.
Gus, com o espírito animado do Montefortes, não queria esperar nem mais um segundo.
— Eu vou lá fora dar um encontrão no Severo.
Alice barrou ele na porta.
— Calma, Gus. Vamos esperar 13 minutos e ver o que acontece.
— Tudo bem, tá certa.
Gus olhou a hora no telefone e sentou para esperar. Era o meu momento de agradecer à Alice e dizer, com a minha voz, o quanto ela foi importante pra mim.
— …
Eu mexia a boca de uma forma que ninguém conseguiria nem fazer leitura labial.
— Vocês querem arriscar? Eu pensei bastante e, se for arriscar mesmo, é melhor só um testar e ver o que acontece. Se der certo, esperamos uns dias e aí o outro faz também.
Faz sentido, essa menina não é nada boba... Acho que precisamos pensar um pouco e insistir em chatbots de IA diferentes. Vai que uma delas seja tão esperta quanto Alice. Combinamos os três em decidir amanhã.
Chegou o dia da decisão com uma mistura de ansiedade e arrepio. Realmente a última parte do feitiço não teve jeito de quebrar a criptografia. A maneira de descriptografar deve ser uma daquelas coisas bobas que qualquer monge medieval resolve em segundos.
Alice entra na sala tão ansiosa quanto a gente. Então, se imitarmos ela, estamos sendo nós mesmos.
— E aí, gente, trocamos mensagens à noite e agora pela manhã, e ainda não sei o que vocês decidiram.
Nesses últimos cinco minutos, eu e o Gus decidimos que eu testaria o feitiço. Já estou assim há mais tempo, sou mais velho, mas o que pesou mesmo foi que fiquei com vontade de arriscar. O Gus está bem inseguro.
— Tá decidido, vou ser eu. — Além de tudo, ainda ganho pontos no quesito coragem com a minha crush.
— Então, quem você já temeu e não teme mais?
Eu queria que fosse ela mesma, para a gente poder fazer um ritual de ficar um na frente do outro, de mãos dadas, olhando olho no olho. Mas, na verdade, ainda tenho o maior medo de levar um toco dela, então não podia ser com ela.
— Quando comecei a fazer os roteiros aqui, eu morria de medo do Montefortes e do Fontes, porque eram eles que avaliavam as minhas ideias, mas agora fico super à vontade com eles.
Por coincidência ou mágica, Fontes entrou na sala.
— Rapaziada, achei muito legal o que adiantamos no sábado. Temos que continuar nessa vibe; nesse ritmo, conseguimos terminar antes do prazo, que, confesso, está me tirando o sono.
Pelo menos uma vez na vida o Fontes podia ter dito uma frase curtinha. Ele em seguida despejou mais uma penca de observações. Ele saiu sem eu ter prestado atenção em metade do que disse.
Alice me olhava com um olhar de reprovação. Eu já estava ficando uma pilha de nervos. Dei uma saída rápida do aquário para beber uma água e, para variar, esbarrei no Severo, que se comporta como se fosse uma briga de trânsito.
— Cacete, não me viu! — Severo e seu jeito amável de ser;
— Cacete, não me viu! — falei o impulso.
Eu estava tão fissurado em repetir uma frase que essa saiu sem querer. Nem tinha mais medo do Severo, agora era só raiva dele ser tão ranzinza e me atrapalhar toda hora.
Novamente, não podia ir para a copa e destilar um mau humor por osmose. Quando me virei para voltar ao aquário, o Montefortes estava atrás de mim.
— Tavo, me responde rápido: o projeto está no prazo?
Minha estratégia era dar um “sim” o mais curto possível, me concentrando para me expressar com toda a gentileza do mundo e disfarçar o tom ríspido.
— Sim.
Saiu um “sim” zero grosseria. Será que deu tudo certo? Vou aproveitar o momento.
— Sim, chefe. Conseguimos ter muitas ideias e já organizamos quase tudo. Se tiver um tempo, a gente te mostra agora.
Segui com Montefortes para o aquário e, antes de entrar, olhei para Alice, que estava me seguindo o tempo todo com os olhos. Levantei os punhos cerrados em sinal de comemoração, e ela devolveu o sinal.
Ficamos mais de uma hora descrevendo o roteiro, que realmente está supercriativo. Quando Montefortes saiu todo satisfeito, Alice entrou rapidamente no aquário.
— O que aconteceu? Acabou a maldição?
— Cara, tô falando com a minha voz normal, nem acredito. Mostramos o projeto para o Montefortes com o Gus copiando ele e eu sendo eu mesmo! Nem acredito que era só repetir alguém e pronto. E ainda aconteceu justamente com o bendito Severo, que eu evitava.
Gus, com o espírito animado do Montefortes, não queria esperar nem mais um segundo.
— Eu vou lá fora dar um encontrão no Severo.
Alice barrou ele na porta.
— Calma, Gus. Vamos esperar 13 minutos e ver o que acontece.
— Tudo bem, tá certa.
Gus olhou a hora no telefone e sentou para esperar. Era o meu momento de agradecer à Alice e dizer, com a minha voz, o quanto ela foi importante pra mim.
— …
Eu mexia a boca de uma forma que ninguém conseguiria nem fazer leitura labial.
Alice arregalou os olhos me vendo preso no silêncio.
— Deu ruim? Não consegue falar?
Eu mordi os lábios e fiz que não com a cabeça.
Ela olhou pra mim e perguntou:
— Consegue me repetir?
Eu respondi:
— Consegue me repetir?
A voz voltou, mas parece que o feitiço mudou: em vez de imitar o jeito de falar, agora para soltar a voz eu preciso repetir o que é falado. Gus desistiu na hora dessa solução meia-boca. Sinceramente, não sei se a situação melhorou ou piorou, o que vocês acham?
Alice agora tinha certeza de que a parte final, que ficou sem tradução, era a chave. E o pior: tínhamos poucos dias para apresentar o projeto para o representante da publisher, que decide se o Reino de Flora entra ou não no console dela.
Ficamos planejando algumas estratégias para quando a minha voz sumisse de novo. No meio da conversa, fiquei mudo novamente. Alice foi direta:
— Consegue me repetir?
Balbuciei, mas não consegui. Ela falou várias coisas para eu repetir, e nada funcionava. Fontes apareceu de novo, nem entrou na sala; só colocou metade do corpo para dentro e perguntou pro Gus:
— Pessoal, desculpa interromper. Gus, você fechou as regras para o taberneiro?
Alice me deu um cutucão e fez um gesto com a mão, do tipo “vai”.
— Gus, você fechou as regras para o taberneiro? — Minha voz voltou.
Eles trocaram algumas palavras enquanto eu e Alice sussurrávamos a nova descoberta. Passamos o resto do dia fazendo experiências e identificamos novas regras. A primeira é que, ao perder a voz, tem que repetir a última frase de alguém. A segunda é que não posso repetir com a mesma pessoa duas vezes seguidas; é preciso alternar com outra pessoa. E a terceira é que não funciona com outro enfeitiçado. Agora tenho que ter muito feeling para usar essas regras e não parecer um papagaio maluco.
O enredo do “Reino de Flora” estava pronto. Montamos, em tempo recorde, uma rebuscada história medieval recheada de elementos históricos reais, astronomia e magia, que se passa no século XIV, onde todos tentam descobrir o paradeiro da misteriosa personagem Flora.
Tudo pronto na sala de reunião, com apresentação na TV, impressos em papel e modelos na impressora 3D. Apresentação ensaiada e aprovada pela equipe de marketing.
O pessoal do console chega: um executivo de negócios, um diretor criativo e um cara da área de produto.
Montefortes abre a apresentação junto com o chad do marketing, aquele que fala bem. Eu, Gus, Alice e Fontes estávamos ali para pau pra toda obra.
Caso eu ficasse travado, já tinha combinado com Alice um plano de emergência. Ela diria “Tá tudo indo muito bem”, e eu repetiria. Não chega a ser muito natural, mas também não soaria tão estranho.
Não deu outra: depois de muito blá-blá-blá, o diretor criativo me perguntou:
— Você é o Tavo, certo? Essa maneira como vocês construíram a jornada do herói foge um pouco da tradicional.
Vi que não ia sair nada e não podia repetir o que ele disse. Ao olhar para Alice, ela foi rápida.
— É uma boa pergunta. — Ela falou como se concordasse com o questionamento.
— É uma boa pergunta. A gente fez isso de propósito para fugir da estrutura tradicional, subverter expectativas e usar o caos do mundo real. — Ela é muito esperta mesmo. Me destravou e foi super tranquilo emendar uma resposta
Foram várias perguntas para todos da equipe. Até que ele voltou a me perguntar:
— Tavo, qual o seu personagem favorito?
A voz falhou. Botei a mão no queixo, fiz um sinal de que estava pensando, esperando alguém falar alguma coisa que eu pudesse repetir. Alice não podia mais me salvar, e Gus era enfeitiçado e não me afetava. Fontes, que estava do meu lado, ficou ansioso com o silêncio e começou a falar.
— Temos muitos personagens e todos são como filhos; é difícil gostar mais de um filho do que de outro. — Ele deu uma pausa inesperada no atropelo característico. — Eu gosto da Alaiz.
— Eu gosto da Alaiz. A doceira é, para mim, a personagem principal. Esse conceito de parecer a coadjuvante, mas ser a personagem principal, eu me inspirei na minha percepção de Rebecca, filha de Isaac de York no livro Ivanhoé, de Walter Scott. Os principais são Wilfred Ivanhoe e Lady Rowena, mas eles são um casal sem sal. A trama mais densa é com Rebecca, e como ela também é inteligente, resiliente, misteriosa e leal... — Voltei a respirar, e o coração a bater. Esse feitiço adora me ver em saia justa. E, se eles não conhecem a elaboração da Rebecca, é uma oportunidade para saber mais.
Sem mais travamentos, a reunião foi um sucesso, e grandes possibilidades de o jogo ser publicado também no console deles.
Hoje é 4 de maio, um novo dia, uma nova esperança! Que a força esteja comigo. Já se passaram vários meses da criação do enredo do “Reino de Flora”. O jogo foi concluído, publicado e, podem acreditar, foi um sucesso. Montefortes chamou eu e o Gus para uma reunião sobre o projeto. E, se deu curiosidade sobre o feitiço, continuamos na mesma — só que mais adaptados.
Começamos a reunião com Montefortes falando da repercussão, dos ganhos que a empresa está tendo, de bonificações e de novidades por aí.
Nisso, Alice abre a porta, e quem entra é uma mulher muito gata. Montefortes a apresenta:
— Essa é a nova integrante da equipe de criação. Flora, esses são Tavo e Gus.
— Olá, boa tarde. — Ela cumprimentou com um jeito super charmoso.
Sim, o nome dela é Flora, mas ainda estou meio hipnotizado. E Gus também não está muito diferente.
— Flora é muito boa com roteiros, lógica e vai dar um toque feminino na continuação do “Reino de Flora”. O sucesso foi tão além do que previmos que não podemos deixar esfriar. Vamos escalar a história e fazer uma saga. Vamos sentar, que explico melhor.
Eu e Gus sentamos no sofá, Flora sentou em uma poltrona à nossa frente, e Montefortes se espalhou na poltrona ao lado.
Era difícil não olhar para Flora, e muito menos para as pernas dela. E parece até maldade, mas cruzar as pernas na nossa frente quebra a concentração.
Quando ela cruzou as pernas, deu para ver. Eu e Gus nos olhamos: ela tem no tornozelo a tatuagem da lebre com a coroa.
Sabe o que é melhor do que ser bonita? Ser bonita e saber exatamente o que os outros estão pensando.
Logo que cheguei na ToyDev, falei com um grupinho que estava reunido perto da porta de entrada que eu tinha uma reunião com o Montefortes. Uma garota com saia de brechó e blusa de grife perguntou meu nome e, ao responder, disse que ia me levar à sala de reunião. Meio riponguinha, bonitinha, mas com carinha de garota boazinha que quer agradar. Não confio muito nesse tipinho, porque sei que, na hora da pressão, é a primeira a surtar.
O ambiente era moderninho, com algumas canetinhas e móveis baratos misturados com outros caros. Bem o estilo da garota que me atendeu. De cara, já percebi uns olhares dos homens do lugar e uma espiada discreta das invejosas. Já estou acostumada com isso, já que sou uma Gostosa Padrão. A tal Alice abre a porta, agradeço e entro na sala de reunião.
O dono todo-poderoso, Montefortes, com seu nome pomposo e performance teatral, me anuncia:
— Essa é a nova integrante da equipe de criação. Flora, esses são Tavo e Gus.
— Olá, boa tarde. — A primeira impressão é a que fica, então uso todo o charme para conquistar e dominar o ambiente.
O resultado é infalível. Esses dois nerds desossados não podem ver uma mulher bonita que travam. O chefão continuou o seu script de quem vai mudar a vida desses carinhas para melhor:
— Flora é muito boa com roteiros, lógica e vai dar um toque feminino na continuação do “Reino de Flora”. O sucesso foi tão além do que previmos que não podemos deixar esfriar. Vamos escalar a história e fazer uma saga. Vamos sentar, que explico melhor.
Gostei do nome do projeto. Com certeza vai ser o meu reino, e já começo com dois súditos. Sentei em uma poltrona, os nerds na minha frente, no sofá, e o chefão na poltrona ao meu lado. Não resisti em provocar os dois carinhas carentes. Ajeitei a coluna de forma bem esguia e, lentamente, cruzei as pernas. É muito divertido ver a reação e a tentativa de disfarçar deles. Como se conseguissem.
Eles até olharam um para o outro, como em filmes de adolescentes, quando percebem que ganharam a sorte grande. Montefortes é bem agitado, tipo coach que não deixa as pessoas pensarem, e age como quem quer contagiar os outros com a própria energia. O Gus tenta copiar o jeito elétrico, mas soa meio falso. Não combina com a cara de bobo dele.
O chefão fez uma propaganda da sala maravilhosa que iríamos ocupar. Tico e Teco concordaram com ele e, quando saímos da sala de reunião e chegamos perto, vi que era tipo um aquário devassado, onde todos podem ficar vigiando e controlando o que estamos fazendo. Mas, por outro lado, também posso monitorar o ambiente do lado de fora.
Antes de entrar, vi que a garota brechó tem uma mesa logo à frente do aquário. Tenho que ver as redes sociais dela para saber o nível das amigas que ela tem. Se forem bregas e tribufus, não vai rolar de sermos amigas.
Montefortes falou, falou, falou, blá, blá, blá, me entregou uma cópia do briefing impresso, avisou aos nerds que tem cópia digital na nuvem, reforçou que o prazo era dia 21 e saiu falando um “Bem-vinda!”.
Comecei a me acomodar, definindo o meu espaço na mesa. Tico e Teco estavam super nervosos, se coçavam como se tivessem pulgas — ou podia ser só falta de banho mesmo.
— Flora, tá se ajeitando aí, né? A gente vai lá fora rapidinho e já começamos a ver o projeto, peraí... — E os dois saíram apressados.
Foram fofocar com a garota sem graça da Alice. Eles devem ser capachos dela e ter que contar cada passo que dão.
Eles voltaram mais tranquilos. Os nerds devem ter pedido conselhos sobre como dividir espaço de trabalho com uma mulher deslumbrante, e ela deve ter falado que eu sou apenas uma mulher bonita, que não é nenhuma raridade — mas isso eu desminto fácil. Agora tenho que resolver esse briefing, que já torci o nariz de cara. Como assim a Rainha Flora, que está desaparecida no jogo, se transformou em uma bruxa? Tenho que dar uma virada nessa história.
— Tavo, Gus... Dei uma olhada nesse resumo aqui e achei muito interessante. Para dar profundidade à Rainha Flora, ela tem que ter um jeito muito carismático e ser atrevida. Assim, ela ganha uma personalidade que não tem igual na história. Se tem que ser uma bruxa, que seja uma bruxa com estilo e personalidade.
Os nerds gostaram, e desenrolamos algumas coisas na trama. Reparei que eles ficavam trocando mensagens, e isso batia com o comportamento da garota brechó. Eles disseram que iriam na copa e que já voltavam. Me deixaram sozinha no aquário, o que achei ótimo para dar um confere nos posts e esvaziar a mente na rolagem infinita.
Perdi um pouco a noção do tempo, mas deve ter passado uns vinte minutos, quando entra uma cara falando pelos cotovelos, no estilo rivotril.
— Recebi a mensagem do Tavo para vir te conhecer. Prazer, sou Fontes, o diretor de arte do projeto. Estamos todos bem empolgados com a continuação do jogo. Você já viu nosso gameplay demo descrevendo as funcionalidades? Também temos muito material que não usamos na versão atual e que podemos usar nessa.
Um sujeito sufocante, mais um maluco no pedaço. Tico e Teco, que só andam em dupla, voltaram da copa. Ao entrar, o esquisito do Tavo olhou pra mim e perguntou:
— E aí, Flora, já conheceu o Fontes? Ele fala rápido, né?
— Sim, cada um tem seu jeito. — Respondi calmamente, para ver se contagiava o ambiente.
A dupla se olhou novamente, falaram juntos um “Ela não é” e saíram de novo para fofocar com Alice. Isso já está me irritando, mas não vou sair do salto. Falta pouco para o fim do expediente, o projeto já começou a andar e, daqui a pouco, relaxo no treino da academia e em casa com a minha rotina de skin care.
Já estou há alguns dias na empresa, aos poucos me destacando no projeto e conhecendo o ambiente e as pessoas. Tavo é superesquisito, pois já vi ele balbuciando, tentando falar, e depois disfarça e sai da sala. E tem vezes que ele repete o que eu falo como um papagaio. Isso me irrita profundamente, mas ainda estou muito recente na empresa para dar um esculacho nele. Já o bobo do Gus tem outra esquisitice: lembra de longe gente que usa masking, mas de uma forma mais literal. E também já o vi se escondendo no banheiro como se estivesse resetando um burnout.
Sabe que, na verdade, estou gostando da posição estratégica desse aquário. Daqui consigo monitorar a macarrão sem molho da Alice, me preparar emocionalmente vendo quando o diretor de arte cafeinado está chegando e também ver quem está na copa. E, nesse momento, tem um cara gostoso da equipe da macarrão sem molho sozinho lá.
— Crianças, eu vou lá na copa. Não façam bagunça enquanto estiverem sozinhos.
Estava mesmo precisando dar uma volta e conversar com alguém que não seja nerd por uns minutos, senão vou acabar me tornando uma deles. Deu até um calafrio.
Cheguei na copa já trocando olhares com o gato, e agora é só seguir a minha receita de bolo de donzela indefesa, deixando o macho alfa me salvar.
— Oi, você pode me ajudar com a máquina de café? — Claro que eu sei usar essa máquina, mas é claro também que ele está esperando poder me fazer uma gentileza.
— Posso sim, qual tipo você quer? Quer uma sugestão? — De longe, vi que era o tipo do cara com repertório, que sabe chegar em uma mulher.
Com poucos minutos de conversa, eu já fiquei sabendo um monte de coisas do Enzo: da academia que ele frequenta, lugares que gosta de ir, comidas preferidas. Só o achei um pouco tatuado demais.
— Legal as tuas tatuagens, são muitas e bem bonitas. — Vamos ver até onde vai o ego dele.
— Ah, valeu! Comecei como todo mundo, fiz uma e depois uma puxa a outra. Elas são todas com temas do folclore japonês.
— Eu só tenho uma, que fiz há poucos meses. — mostrei meu tornozelo para ele, e dei uma permissão para dar um confere nas pernocas. — Ela é de um livro antigo que vi em um brechó de objetos antigos. — peguei o celular e fui na pasta das minhas imagens favoritas. — Olha a foto dela na página do livro.
— Uau, não imaginava que essa imagem era tão antiga. Parece um grimório medieval, com escritos em latim. A página toda é bem bonita, os desenhos das bordas são bem criativos…
Essa é a minha oportunidade de conseguir o zap dele sem parecer oferecida.
— Gostou? Me dá o teu número que envio para você. Tenho essa e vou mandar também a página que está ao lado, na hora tirei foto das duas.
— Olha que coincidência, essa lebre é a representação de Moon-Gazing Hare, associada aos ciclos lunares. A gente, quando fez as runas do jogo, usou essa mesma imagem como referência. O Gus e o Tavo têm uma tatuagem igual a essa. O Tavo quis usar como um easter egg pessoal.
— Podem ser parecidas, né?
— Não, não. São iguais, sim. Para o jogo, o Tavo pediu para fazer uma pequena mudança, mas a tatoo dele é idêntica a essa. Você se interessa por cultura celta?
— Sim, um pouco. — Odeio o mundo, mas sorrio para ele.
— A gente juntou várias referências legais para o enredo. Teve algumas que nem tivemos oportunidade de usar, como os cantos em Sean-nós. Tem também o calendário lunar e coisas curiosas, como o festival do fim do ano lunar que inspirou o Dia das Bruxas. Os celtas tinham um nome para cada lua cheia do ano, e a lua cheia deste mês é justamente a Lua da Lebre, que é a da sua tatuagem.
Ele me falou rapidamente de várias coisas que pesquisaram, mas que ficaram abandonadas por falta de gancho para conectar, como uma espada mágica forjada pelos deuses, que, quando apontada para alguém, fazia com que essa pessoa não conseguisse mentir.
Enzo falou coisas interessantes que eu podia usar a meu favor, mas também soltou uma bomba na minha cabeça: eu tenho uma tatuagem de um livro de mil anos atrás, superexclusiva, e os nerds agora têm uma igual. Vou voltar para o aquário e, de alguma forma, tenho que esclarecer isso com Tico e Teco. Mas, antes, uma busca rápida na internet e com os chatbots para entender sobre as coisas celtas que o Enzo me contou.
Entro no aquário, e Fontes está falando pelos cotovelos. Então preciso cortá-lo.
— Queridos, estou com várias ideias para esse jogo. Uma coisa que sinto falta é de uma pegada musical. Vocês já ouviram músicas Sean-nós? Elas têm um clima “Reino de Flora” total. Então, a Rainha Flora pode ter momentos de canto. E, como ela dá nome ao jogo, não pode ser uma qualquer uma sem gracinha. A personalidade dela tem que ser magnética, cativante e muito esperta. Já o ferreiro e seu aprendiz, que são os melhores amigos da doceira, Flora pode transformá-los em seus súditos e, assim, aumentar a rivalidade com a doceira.
Já ia me esquecendo da espada.
— E o mistério do sumiço da Flora a gente coloca que ela foi em busca de uma espada mágica que tinha o poder de fazer os outros falarem a verdade. E, nessa busca pela espada, ela se aprofunda em magias e vira uma feiticeira, e não bruxa, como está até agora.
Olhei para o Gus, que estava com cara de pensativo.
— No que você está pensando?
Ele destravou e respondeu:
— Na espada de Fragarach, a Respondente. — Completou Gus, o nerd aprendiz.
— Essa mesma. Muito bem, jovem padawan. — Eu tinha esquecido o nome e, para mostrar como sou boazinha, reconheci o feito com um parabéns no idioma nerd deles. Assim, já começo a arrebanhar meus súditos com um viés de afinidade e, de quebra, me coloco no lugar de mestre e ele, de criança aprendiz.
Fontes estava com um olhar fascinado com a construção do meu arco dramático supercriativo, Gus concordando e Tavo tendo que engolir. Três contra um, perdeu! Se vocês ainda não entenderam a dinâmica do escritório e do jogo, Alice é a doceira, Tavo o ferreiro e Gus o aprendiz. Clássico espelhamento de autor/personagem. E eu me intitulo “Rainha Flora”. Agora preciso resolver essa pendência da tatuagem.
— Para o encontro da doceira com a feiticeira, sugiro que a fofa da Alaiz encontre um gato selvagem doente e o leve para uma curandeira na floresta. Essa curandeira é justamente a Rainha Flora, que todos davam como desaparecida. É um encontro casual.
Fontes estava prestes a derramar uma lágrima de emoção com o enredo e com a minha capacidade de criar storytelling.
— E, falando em gatos, o “gato” do Enzo me disse que vocês têm uma tatuagem igual à minha. É sério isso? Eu tirei a minha de um desenho em um livro antigo. E você, Gus? — Além de encurralar o bobo do Gus, ainda faço uma provocação para meus súditos do aquário ficarem em ritmo de competição com Enzo.
— É uma imagem da internet da Deusa Eostre, associada na cultura popular ao mito moderno da lebre que esconde ovos coloridos. — O metido do Tavo passou à frente do Gus. — Eu também tenho uma igual. É uma imagem meio comum, e até o nome da festa Easter acabou incorporado pelo cristianismo.
— Sim, eu conheço a história. — Conheci meia hora atrás. Não mereço ficar ouvindo palestrinha de nerd. Também não levei fé nessa conversinha de “imagem da internet”, nem na falta de curiosidade sobre de que livro eu tirei o desenho. Papo estranho, com gente esquisita.
Fontes saiu do aquário todo satisfeito, e os dois nerds me deixaram sozinha, indo correndo fofocar com Alice. Esse trio tem algum segredinho, ou devem adorar falar de mim.
Aproveitando que estou no aquário sem ninguém me enchendo, vou jogar as fotos do livro no GPT e ver o que ele me diz.
Joguei a primeira, e ele respondeu que é uma página com a figura de uma lebre, com escritos em latim e blá, blá, blá. E me transcreveu o texto em latim com a tradução. Me interessei pelo início:
Uma única voz tem duas faces:
uma é a Maldição que vence,
a outra é a Revelação da Mente que tudo desnudará.
Aquilo que começa nas trevas é completado à luz de Samhain ou da lebre.
Tem uma maldição e uma Revelação da Mente que tudo desnudará. Isso muito me interessa. A maldição está na página 1 e não quero perder tempo com isso agora. Vou jogar a página 2, que tem um título de Incantatio II: Revelatio Mentis. Mama Mia, deu até vontade de comer uma pizza napolitana agora.
INCANTATIO II: REVELATIO MENTIS
Sub Luna vox sola, cum leporis coronati imagine, cantabit.
Et cantu nudo in tenebris mens aperietur.
Sed cave vocem que mandatum cecinit:
Expone quod cogitas. Hoc est venenum.
Qui audiverit, statim respondere debebit,
et anima nuda cogitationem suam revelare.
Peg pi zoqtfnjaq nurd seubx jaqdxtl, lrgike fnyeosr, x iesooe xnlmb muue mrrfbrdnquu, siqcrlxm fnfaktdmbnwi ptdtfm poovbtxr.
Aenigma Leporis
Hic veritas sopita iacet, littera aliena velata.
Non omnis Trinitas eadem est: est Trinitas simplex, quae omnibus litteris aequaliter imponitur, et est Trinitas leporis.
In quolibet leporis saltu, Trinitas admovetur et invertitur. At lepus non nisi ibi salit ubi numerus saltus, in duo divisus, residuum indelebile relinquit.
Et, ubi novum verbum invenit, lepus Trinitatem saltuum suorum ab uno denuo instaurat.
Agora sim, a resposta ficou interessante:
ENCANTAMENTO II: REVELAÇÃO DA MENTE
Sob a Lua, uma única voz, junto à imagem da lebre coroada, cantará.
E, através do canto nu, nas trevas, a mente se abrirá.
Mas cuidado com a voz que entoou a ordem:
“Exponha aquilo que você pensa. Isto é veneno.”
Quem a ouvir deverá responder imediatamente,
e, com a alma desnuda, revelar seu pensamento.
O trecho seguinte:
Peg pi zoqtfnjaq nurd seubx jaqdxtl, lrgike fnyeosr, x iesooe xnlmb muue mrrfbrdnquu, siqcrlxm fnfaktdmbnwi ptdtfm poovbtxr.
também não é latim e parece estar cifrado. Não dá para traduzir diretamente sem decifrá-lo.
Aenigma Leporis
O Enigma da Lebre
Aqui jaz adormecida a verdade, velada por letras estranhas.
Nem toda Trindade é a mesma: há uma Trindade simples, que é aplicada igualmente a todas as letras, e há a Trindade da lebre.
A cada salto da lebre, a Trindade é aproximada/aplicada e invertida. Mas a lebre não salta senão quando o número de saltos, dividido por dois, deixa um resto indelével.
E, quando encontra uma palavra nova, a lebre reinicia a sua Trindade de saltos a partir de um.
Vou focar no encantamento. O enigma da lebre deixo para os estudantes do ENEM resolverem, com suas trindades e lebres invertidas.
Separei o que me interessa do resto, que só faz ruído:
Revelação da Mente que tudo desnudará.
Aquilo que começa nas trevas é completado à luz de Samhain ou da lebre.
ENCANTAMENTO II: REVELAÇÃO DA MENTE
Sob a Lua, uma única voz, junto à imagem da lebre coroada, cantará.
E, através do canto nu, nas trevas, a mente se abrirá.
Mas cuidado com a voz que entoou a ordem:
“Exponha aquilo que você pensa. Isto é veneno.”
Quem a ouvir deverá responder imediatamente,
e, com a alma desnuda, revelar seu pensamento.
Eu tenho a imagem da lebre coroada junto de mim; estamos perto da Lua Cheia da Lebre. Agora estou na dúvida se é para cantar nua pra Lua. Na minha experiência de roteirista e storytelling, “cantar nu” deve ser algo mais poético e figurativo, como cantar sem instrumentos. Nada é por acaso: o Enzo me falou do canto de Sean-nós. Nessa mistureba celta, acho que tudo se encaixa: cantar uma música folclórica sob a Lua da Lebre. Assim, ativo o feitiço e vou ter um superpoder. É só perguntar para alguém o que está pensando que ela vai ter que me responder. Muito bom isso.
A empolgação já me fez esquecer até do trio enjoado. Botei o fone de ouvido e, procurando músicas Sean-nós legais para cantar à capela para a Lua, achei uma que parece ideal, super fofa: “I’ll Tell Me Ma”, na versão da Sinéad O’Connor. Ela nem é Sean-nós raiz, mas é folclórica e divertida. No feitiço, não diz que tem que ser uma canção melancólica.
Faltam poucos dias para terminar o roteiro do projeto e fazer a apresentação para os publishers do console. Estive pensando se esse feitiço da lua pode funcionar mesmo ou se é só fantasia. Será que estou me transformando numa nerd! Tico e Teco têm tatuagem e agem de forma esquisita, repetindo e imitando os outros. Vou fazer uma pegadinha com o Gus, que é menos desconfiado que o Tavo.
Fiquei observando o caminho até a copa, esperando o momento em que Severo aparecesse por ali.
— Gus, vamos ali na copa tomar um café.
— Sim, vamos sim, só um minuto.
— Depois você continua. Vamos agora, que na volta te ajudo.
Mordeu a isca. Peguei Gus pelo braço e andei com um passo rápido para não deixar de encontrar Severo.
— Oi, Severo, tudo bem! Viu que já respondi o questionário do RH? Está tudo certinho?
— Sim, tudo certo, mais alguma coisa? — Adoro o tom ríspido dele, ainda mais precisando dele para o meu teste com o Gus.
Puxei o Gus para ir à copa, porque ele quase escapou em direção ao banheiro.
— Vamos, Gus, vamos tomar nosso café. — Eu insisti no convite com jeitinho fofo.
— Agora não posso, tô apertado.
Ele respondeu ríspido ao meu pedido carinhoso, foi correndo para o banheiro e me deixou plantada. Touché, ele está enfeitiçado. E se o Tavo, que tem que repetir o que os outros estão falando como um papagaio, também deve estar... As esquisitices são versões da maldição. Então, se eu não quiser ficar patética assim como eles, vou ter que fazer o feitiço do canto e me tornar a feiticeira que “desnuda mentes” — como se eu já não fosse.
Final de expediente do dia 20 de maio de 2027, véspera da apresentação para a publisher, e faltam poucas horas para a minha Lua das Lebres. Vi nas redes sociais que vai ser também uma Lua Azul, com direito a uma explicação fascinante sobre o nome:
“A origem do nome é uma confusão linguística super antiga! No inglês antigo, a palavra belewe significava ‘trair’, e a terceira lua cheia de uma mesma estação era chamada de ‘Lua Traidora’ por bagunçar o calendário agrícola. Com o tempo, a pronúncia mudou, as pessoas confundiram o termo com a palavra blue (azul) e o nome pegou, gerando até a famosa expressão ‘once in a blue moon’ para coisas raras. #Astronomia #Curiosidades #LuaAzul #Espaço #FatosCuriosos”
Vou aproveitar esse gancho e fazer uma postagem do meu canto. Afinal, vai ser um marco histórico para a humanidade.
O pessoal da equipe de artes está baratinado com a finalização do material. A Macarrão está uma pilha de estresse, tadinha. Eles nem fazem ideia de como a lua de hoje é importante. Vou me despedir do trio chiclete que não se desgruda.
— Queridos, eu queria muito ficar até mais tarde com todos vocês, mas tenho um compromisso inadiável que já estou esperando há dias.
— Tá bem, Flora. Se precisar, pode ligar pra gente. Gostamos muito de você. — Essa doçura da Macarrão vai acabar me dando cárie nos dentes.
Saí do escritório desejando boa sorte a todos e cobrando capricho. Meu destino agora é a casa de uma amiga que tem um jardim com piscina. Ela já foi influencer, mas cansou de brincar disso. A casa dela tem cenários ótimos, e vou ter uma bela visão da lua.
Chegando na casa dela, quis ir logo para o jardim preparar a iluminação e o tripé para gravar com o telefone.
Com tudo pronto e para matar o tempo, ela me chamou para tomar um vinho. Nunca entendi de vinhos e acho que nunca vou entender, para mim é tudo muito igual. Se estou em um lugar onde alguém está pagando para mim, escolho um dos mais caros, mas não o mais caro de todos para não ser aproveitadora. Agora, se eu tiver que pagar, vou no segundo ou terceiro mais barato, para não parecer sovina. No fundo, sei que é tudo pose; a ciência já provou que em teste cego quase ninguém distingue o gosto de um vinho de cem reais de um de mil se tirarem o rótulo da garrafa. E não me julguem, porque isso é um conceito científico real de marketing e economia comportamental.
Degustando de forma sofisticada um rótulo que ela disse que é sensacional, aproveitamos para fofocar e falar mal de meio mundo, do alto da nossa cumplicidade de “gostosas padrão”.
Esse papo venenoso é ótimo, porque faz o tempo voar, e logo a luz da lua já estava iluminando o gramado ao redor da piscina. Para a superprodução, meu figurino é uma saia midi preta com fenda, colete texturizado, um scarpin nude com textura de cobra e joias de prata com pedras naturais e símbolos lunares.
Lua bem à minha frente, iluminação ligada e telefone gravando. Hora do show:
Comecei a cantar “I’ll Tell Me Ma”, e essa é a parte mais divertida e a minha cara:
She is handsome, she is pretty,
she is the belle of Belfast city.
Parece até mágica: o vídeo saiu de primeira, perfeito. Minha amiga me ajudou fazendo uma edição super-rápida, e já estava no ar recebendo curtidas e comentários dos meus milhares de seguidores. O trio chiclete foi um dos primeiros a dar like e comentar. Eles não admitem, mas devem ser supercuriosos da minha vida.
Já fiz a minha parte de estrela das redes. Agora é hora de testar o meu superpoder. Olhei para minha amiga bem de frente e mandei:
— No que você está pensando?
Ela deu um sorriso bem debochado, que era a cara dela.
— Ah, minha amiga, nem queira saber.
Não riam de mim, porque nem eu levava muita fé nessa história. O que importa é que me diverti e ainda ganhei milhares de likes e até novos seguidores.
Chegou o meu dia de brilhar mais que aquela lua de ontem. O pessoal já deixou tudo pronto, e agora é só esperar a hora dos caras do console chegarem para começar a nossa apresentação.
Vou fazer uma hora na copa, onde Alicinha está preparando um café e o gato do Enzo está todo fofo, distraído, olhando para o seu copo. Chego perto e começo a jogar charme:
— Oi, Enzo, você parece distraído.
Alicinha, quando me ouviu, ficou me olhando como se nunca tivesse me visto, mas ignorei. Já o Enzo me deu aquela olhada de quem confere o material. Para ele não ficar com uma cara de paspalho e perder o encanto, acho melhor provocar um assunto.
— No que você está pensando?
— Penso que você está super gostosa nesse vestido.
Adorei a ousadia. Mas o gato, quando terminou a frase, deu uma congelada e começou a olhar para Alice, que deu uma super encarada nele. Ele voltou a olhar para mim:
— Flora, desculpa. Desculpa, às duas. Saiu sem querer, por favor, não me acusa de assédio.
Que cena engraçada, devia ter filmado. Estou tentando segurar o riso, mas está difícil.
— Alice, eu nunca me insinuei pra Flora antes, sei como são as políticas da empresa. Ela, uma vez, me mandou no WhatsApp umas páginas de um livro de onde ela tirou a imagem da tatuagem, mas eu nunca nem mandei nenhuma mensagem para ela.
— Páginas de um livro com a imagem da tatuagem? Enzo, vem comigo agora.
A poodle raivosa pegou o gato pelo braço e o arrastou até o aquário, e ainda olhou para trás para ver a minha cara de moça indefesa.
Tadinho do meu gato, vai levar aquela bronca da chefinha. Mas, pensando bem nisso tudo, será que o meu poder está funcionando?
E adivinha quem chegou? Os caras da publisher.
Gus avisou que iria atrasar, e Tavo e Alicinha ficaram lá no aquário. Sou a única da equipe de criação do roteiro presente na apresentação. Montefortes fez a abertura institucional, e Bruno, do marketing, apresentou como seria o desenrolar da nossa história.
Assim que Bruno terminou, um dos representantes da publisher me perguntou qual era o meu papel ali. Eu já estava até achando estranho o meu magnetismo natural demorar para fazer efeito. Eles começaram a metralhar várias perguntas sobre o roteiro e, como eu era a única mente criativa na sala, reinei absoluta.
Já bem no meio da reunião, Alicinha e Tavo entraram na sala. Estavam super atrasados, mas ostentavam uns sorrisos enormes, como se tivessem acabado de ganhar na loteria. E, pelo meio saco de pipoca que Tavo estava segurando, o casalzinho foi bater perna na rua. Total falta de compromisso. Ficaram discretamente em um canto. Não entendi o porquê de tanta felicidade para quem quase perdeu o horário, mas ignorei.
A sabatina já estava terminando; fizeram umas poucas perguntas para o nerd e para Alicinha, até que um dos caras da publisher me perguntou:
— E reparei que nessa continuação fugiu ainda mais da Jornada do Herói.
— Sim, com certeza. Agora a história foge de todas as estruturas narrativas tradicionais: temos uma nova personagem anti-heroína, a solução final é em grupo, e ainda fechamos com um belo toque de inteligência emocional, mostrando uma atitude sincera de acolhimento.
— Interessante.
Foi um comentário meio vago, mas sem querer, o homem me deu a deixa perfeita para eu testar o meu superpoder de revelação. Olhei bem nos olhos dele e joguei:
— Interessante? No que você está pensando?
— Penso que o Montefortes deveria te colocar como líder da equipe de criação.
O homem se assustou com as próprias palavras assim que terminou de falar. Ele pigarreou, meio sem graça, e virou-se para o nosso chefe:
— Quer dizer, sem querer interferir na hierarquia da sua empresa, Montefortes, mas é que essa moça tem uma presença avassaladora.
Deu uma disfarçada clássica e se saiu bem. Mas, para mim, já era o suficiente. Senti o gostinho do poder florescendo de verdade dentro de mim. Lá no canto da sala, Alicinha continuava de cochicho com Tavo, provavelmente se roendo de inveja do meu sucesso.
A reunião acabou e começou uma pequena confraternização. Montefortes todo animado e, num breve momento, consegui encaixar uma fala mortal:
— Chefe, o que está pensando?
— Eu penso que espero que você não peça um aumento, porque não vou ter como negar e te perder na equipe.
— Ah, já que está pensando assim, aceito o aumento sem problemas. — Ele ficou sem graça e de saia justa, mas justo mesmo é eu ganhar um aumento depois de hoje.
Gus, sempre atrasado, chegou e foi direto formar o trio da fofoca com a doceira encantadora de nerds e seu amiguinho preferido. Eles saíram juntos, correndo para se enfurnar no aquário, enquanto eu fiquei no salão principal ganhando pontos, fazendo uma social com as visitas e sendo badalada por todo mundo.
Depois de me despedir dos simpáticos visitantes, olhei através do vidro do aquário e vi a poodle raivosa gesticulando e dando bronca de novo. Só que, dessa vez, o alvo era o Gus. Eu não podia perder essa cena por nada. Fui até lá para me divertir um pouco às custas deles.
Abri a porta de vidro. Alicinha e Tavo pararam bem na minha frente. Hora de mais um teste:
— Queridos, o que vocês estão pensando?
Tavo e Alice se olharam e falaram exatamente ao mesmo tempo, com as vozes sincronizadas:
— Estou apaixonado por você!
Em seguida, continuaram se encarando fixamente, como se eu tivesse evaporado da sala. Que bregas. Então é assim que eles me agradecem por eu ter servido de cupido místico? Ingratos.
Passei por eles e foquei no Gus pateta. Vamos ver o que passava naquela cabecinha oca:
— Gus, no que você está pensando?
— Pensando está você que no Gus?
Hein? Pisquei duas vezes. Esse garoto deve ter tomado todas antes de vir trabalhar. Conheço o tipo: bastou comer um bombom com licor para o cérebro entrar em curto-circuito. Resolvi insistir para ver se o motor pegava no tranco:
— Gus, no que você está pensando?
— Estou pensando que meus amigos são super legais... e que talvez você também seja!
Achei a resposta incrivelmente boba e sem graça, mas notei que ele falou comigo de um jeito leve e natural pela primeira vez na vida. No fim das contas, acho que o meu poder acabou dando uma personalidade própria para esse garoto.
Saí daquele aquário abafado decidida a zoar mais um pouco pelo escritório. Olhei para o lado e vi o alvo perfeito implorando para ser a minha próxima vítima:
— Oi, Severo, querido. O que você está pensando?
— Não te dei essa intimidade, Flora.
Uau. Esse aí tem o corpo fechado pelo mau humor, não há feitiço celta que dê jeito. Mas o Bruno estava logo ali na mesa ao lado, seria mais fácil.
— Oi, Bruno, querido. No que você está pensando?
— Tá filmando isso? É para postar em formato de meme?
Mas que feiticinho mais meia-boca esse meu. Concluí que perguntar assim, na lata e de qualquer jeito, não funcionava. O poder só dava certo quando eu combinava o misticismo com o meu charme natural e o meu timing preciso e certeiro.
— Gus, eu e o Tavo já estávamos ansiosos esperando você chegar. Vamos lá no aquário que eu te explico o que você precisa fazer.
— É verdade que o Tavo já não tem mais a maldição? — Gus não perde a mania de falar sem se importar com o lugar.
— Shhh! Já te conto.
Fomos até o aquário e abri o feitiço todo traduzido para o Gus ler rapidamente.
— A Flora fotografou as duas páginas do livro, e eu consegui com o Enzo a cópia da segunda, que a gente não tinha. Agora temos o feitiço completo. Eu e o Tavo quebramos todas as criptografias com a instrução que tem no final, e esse aqui é o texto todo traduzido:
Manual dos Feitiços — A Voz de Duas Faces
INSTRUÇÃO GERAL
Uma só voz possui duas faces:
uma é a Maldição que acorrenta,
a outra é a Revelação da Mente que tudo desnudará.
O que nas trevas começa, na luz do Samhain ou da lebre se completa.
I — A MALDIÇÃO
Sob a Lua, a imagem da lebre coroada se veste no corpo e, ao despertar, o sopro se cala.
A própria voz do ser se perde, preso a seguir a forma alheia que, a cada momento, escutará.
Para que rompas o vínculo, deves repetir as últimas palavras proferidas por outro, a quem outrora temeste mas já não temes.
Mas cuidado para não ficar preso na repetição para sempre; assim, deves repetir as palavras ouvidas do outro em ordem inversa.
II — A REVELAÇÃO DA MENTE
Sob a Lua, com a imagem da lebre coroada, com voz solitária cantará;
e, com seu canto nu nas sombras, a mente se abrirá.
Mas cuidado com a voz que cantou o mandamento:
“Exponha o que estás pensando!”, este é o veneno.
Aquele que ouvir deverá diretamente responder,
e, com a alma nua, seu pensamento revelar.
Mas, se a resposta for as palavras do mandamento em ordem inversa proferidas por uma lebre de alma pura, o vínculo do encanto na hora se romperá.
O ENIGMA DA LEBRE
Aqui jaz adormecida a verdade, velada por uma letra alheia.
Nem toda Trindade é a mesma: há uma Trindade simples (César -3), que se impõe igualmente a todas as letras; e há a Trindade da lebre.
Em cada pouso da lebre, aplica-se a Trindade e a inverte; porém a lebre só pula onde o número do pouso, repartido em dois, deixa um resto que não se apaga (posições ímpares) (César -3, 0, +3, 0, -3...). E, ao deparar com uma nova palavra, a lebre recomeça a trindade de seus pousos desde o primeiro.
— Então é só repetir uma fala de alguém de quem eu já tive medo, de trás pra frente?
— Isso mesmo! — Tavo deu o saquinho de pipoca pela metade para o Gus. — A gente foi até o pipoqueiro, que eu morria de medo dele, lembra?
— Ele disse para mim que eu era uma moça muito bonita e falou para o Tavo: “Garoto de sorte!”.
— Eu respondi: “Sorte de garoto!” — Tavo falando todo cheio de si.
Gus é tão disperso que acaba dispersando todo mundo. Hora de focar:
— Gus, leia tudo, porque eu e o Tavo achamos que só você se encaixa para quebrar o encantamento da Flora. Você é o nosso Parsifal. — Gus fez cara de quem não entendeu de primeira. — Lembra que a Flora postou ela cantando à noite? Era o canto para a Lua da Lebre. Ela fez a parte 2 do feitiço, por isso não ficou mimética como vocês.
— Ela agora pode ler pensamentos?
— Quase. É parecido com a espada mágica que vocês usaram no jogo. Quando ela pergunta para alguém o que a pessoa está pensando, a pessoa tem que revelar o pensamento naquele momento. Eu vi acontecer três vezes: uma com o Enzo, uma com um dos caras da publisher e uma com o Montefortes.
Eu sei que é informação demais pra cabeça dele de uma só vez, então tenho que ser bem prática.
— Você ainda tem medo da Flora?
— Já tive, porque achava que ela iria ferrar a gente. Mas agora só vejo uma garota egocêntrica e que, no fundo, nunca prejudicou ninguém por aqui.
— Ótimo! Quando a Flora te perguntar o que você está pensando, você fala exatamente as mesmas palavras que ela disser, ao contrário. Você consegue?
Nisso, Flora entra na sala e pergunta para mim e para o Tavo no que a gente estava pensando.
Eu olhei pro Tavo, ele olhou pra mim, e não consegui segurar:
— Estou apaixonada por você.
E Tavo falou a mesma coisa. Fiquei numa mistura de surpresa e felicidade; o tempo deu uma pequena parada, e não prestei mais atenção em nada.
Logo depois, escutei Gus falando as palavras dela ao contrário e, em seguida, foi nítido que ele parou de imitar os outros e começou a falar naturalmente.
Flora saiu, e demos um abraço triplo. A maldição estava quebrada, e o mundo salvo de ter uma gostosa padrão incontrolável.
Pelo vidro, podíamos ver a Flora falando com Severo e depois com Bruno, e pelo sorriso amarelo dela, não devia mais estar conseguindo fazer suas pequenas maldades.
— Vamos lá! — Agora era a nossa vez de controlar a situação.
Fomos até ela, que, a essa altura, parecia que já tinha esquecido o sucesso que fez na apresentação.
Paramos na frente dela, trocamos olhares entre a gente sorrindo e concordando silenciosamente.
— Flora, bora sair com a gente para comemorar?
FIM